Otorrinolaringologia

A geração dos fones: o que pode estar prejudicando a audição dos jovens agora

O otorrinolaringologista Dr. Francisco Leite dos Santos alerta para sinais precoces de desgaste auditivo em adolescentes e jovens adultos e explica como reduzir o risco no dia a dia.

Por Redação Brazil Health , 09/06/2026

4 min de leitura

A geração dos fones: o que pode estar prejudicando a audição dos jovens agora

Durante muito tempo, a perda auditiva foi associada principalmente ao envelhecimento ou à exposição ocupacional a ambientes extremamente ruidosos, como fábricas e máquinas industriais. Nos últimos anos, porém, especialistas têm observado uma mudança importante nesse cenário: jovens adultos e até adolescentes vêm apresentando sinais precoces de desgaste auditivo relacionados à exposição sonora recreativa, especialmente pelo uso frequente e prolongado de fones de ouvido.

Por que o volume e o tempo de uso fazem tanta diferença

O aumento do tempo de exposição ao som faz parte da transformação da rotina moderna. Hoje, muitas pessoas passam horas por dia utilizando fones para trabalhar, estudar, jogar, assistir a vídeos, ouvir música ou participar de chamadas online. O problema não está no uso do fone em si, mas na intensidade do volume e no tempo contínuo de exposição.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de um bilhão de jovens em todo o mundo podem estar em risco de perda auditiva relacionada a hábitos inseguros de escuta. Isso ocorre porque níveis elevados de som, quando mantidos por tempo prolongado, podem provocar lesões progressivas nas estruturas responsáveis pela audição.

O que acontece dentro do ouvido

O ouvido interno possui células sensoriais altamente especializadas, chamadas células ciliadas, responsáveis por transformar vibrações sonoras em sinais elétricos que serão interpretados pelo cérebro. Essas células são delicadas e não possuem capacidade significativa de regeneração. Quando expostas repetidamente a sons intensos, podem sofrer dano progressivo.

Os efeitos nem sempre aparecem imediatamente. Em muitos casos, os sinais iniciais são sutis e acabam ignorados, especialmente entre os mais jovens. Entre os sintomas mais comuns estão zumbido, sensação de ouvido abafado, dificuldade para compreender conversas em ambientes com ruído e necessidade frequente de aumentar o volume dos aparelhos.

Também pode ocorrer fadiga auditiva, situação em que o cérebro passa a fazer mais esforço para compreender sons e falas ao longo do dia. Com o tempo, isso pode gerar impacto na concentração, na comunicação e na qualidade de vida.

O aspecto mais preocupante é justamente o caráter silencioso do problema. A perda auditiva induzida por exposição sonora costuma se desenvolver de forma gradual. Muitas vezes, o paciente só percebe alterações quando parte da audição já foi comprometida.

A preocupação da comunidade médica aumentou porque, cada vez mais, pacientes jovens apresentam sinais iniciais de sofrimento auditivo em exames especializados. Embora nem todo usuário de fones desenvolva perda auditiva, a exposição frequente a volumes elevados aumenta o risco de lesão auditiva ao longo do tempo. Além da redução da audição, a exposição sonora excessiva também está associada ao aumento da ocorrência de zumbido e desconforto auditivo em alguns indivíduos mais suscetíveis.

Como usar fones com mais segurança

Isso não significa que os fones de ouvido sejam vilões ou precisem ser evitados; o ponto central é o uso seguro. Entre as principais recomendações, está manter o volume em níveis moderados, evitar longos períodos contínuos de exposição e realizar pausas regulares ao longo do dia. Uma orientação frequentemente utilizada é a chamada “regra 60/60”: utilizar os aparelhos em até cerca de 60% do volume máximo por, no máximo, 60 minutos contínuos antes de fazer pausas. Embora essa regra não substitua avaliações individuais, ela ajuda a reduzir o risco de exposição sonora excessiva.

Modelos com cancelamento de ruído também podem contribuir em alguns contextos, especialmente em ambientes barulhentos, porque reduzem a necessidade de aumentar excessivamente o volume para competir com o ruído externo.

Outro ponto importante é estar atento aos sinais do próprio corpo: episódios frequentes de zumbido, sensação de ouvido tampado ou dificuldade auditiva após uso prolongado de fones não devem ser considerados normais.

A audição é um processo complexo e muito sensível à exposição sonora ao longo da vida. Pequenas mudanças de hábito adotadas precocemente podem ter impacto importante na preservação auditiva no futuro.

Dr. Francisco Leite dos Santos - CRM 134161 SP - RQE 59741

Médico otorrinolaringologista