O efeito Neymar: por que tantos atletas recorrem ao PRP e o que a medicina realmente sabe
De Neymar a Rafael Nadal, passando por Cristiano Ronaldo, Rodrigo Garro e o jovem Estevão, o plasma rico em plaquetas ganhou fama como uma espécie de “injeção da recuperação”. O ortopedista Dr. Pedro Debieux explica por que o tratamento se tornou tão popular no esporte e quais são seus reais limites
Por Dr. Pedro Debieux Vargas Silva , 16/07/2026
5 min de leitura
Poucos tratamentos despertaram tanta curiosidade no esporte quanto o plasma rico em plaquetas, mais conhecido pela sigla PRP. Nos últimos anos, diversos atletas de elite recorreram à terapia em momentos importantes de suas carreiras, ajudando a criar a imagem de que ela seria uma solução quase milagrosa para acelerar a recuperação de lesões.
Mas a realidade é mais interessante e, ao mesmo tempo, mais complexa.
O PRP é produzido a partir do próprio sangue do paciente. Após um processo de centrifugação, obtém-se uma concentração de plaquetas e de substâncias chamadas fatores de crescimento, que participam dos mecanismos naturais de reparo dos tecidos.
A ideia por trás do tratamento é simples: utilizar elementos do próprio organismo para estimular processos de recuperação em determinadas lesões musculares, tendíneas, ligamentares ou articulares.
Por que tantos atletas usam PRP?
No esporte de alto rendimento, tempo é um recurso valioso. Cada semana longe das competições pode representar perda de desempenho, títulos e até prejuízos financeiros.
Por isso, qualquer tratamento que ofereça a possibilidade de melhorar a recuperação naturalmente desperta interesse de atletas, equipes médicas e clubes.
Casos de jogadores de futebol e de grandes nomes do tênis que recorreram ao PRP ajudaram a popularizar a técnica em todo o mundo. O problema é que, muitas vezes, criou-se a impressão de que a terapia seria responsável, sozinha, pelo retorno desses atletas às competições.
Isso raramente corresponde à realidade.
A recuperação de um atleta de elite envolve uma combinação de fatores: fisioterapia intensiva, controle de carga, preparação física, nutrição, qualidade do sono, acompanhamento médico multidisciplinar e, em alguns casos, o uso de terapias complementares, entre elas o PRP.
Nem toda lesão melhora com PRP
A medicina baseada em evidências trouxe uma visão mais equilibrada sobre o tratamento.
Hoje sabemos que o PRP não funciona da mesma forma para todas as lesões. Existem situações em que os estudos mostram benefícios mais consistentes, como alguns casos de artrose inicial do joelho e determinadas tendinopatias crônicas.
Em outras condições, os resultados são mais modestos ou ainda inconclusivos.
Isso significa que o fato de um atleta famoso ter utilizado PRP não quer dizer que o tratamento seja indicado para qualquer pessoa ou para qualquer lesão.
A pergunta correta deixou de ser “o PRP funciona?” e passou a ser “para quem ele funciona e em quais situações?”.
A fama dos atletas ajudou a ciência a amadurecer
Curiosamente, a popularização do PRP entre atletas também teve um efeito positivo. Ela estimulou um enorme número de pesquisas e ajudou a impulsionar o desenvolvimento da medicina regenerativa.
Hoje, sabemos que não existe apenas um tipo de PRP. As concentrações de plaquetas, a presença de células inflamatórias e a forma de aplicação podem variar bastante. Isso ajuda a explicar por que alguns pacientes apresentam resultados muito bons e outros, nem tanto.
A tendência atual é caminhar para tratamentos cada vez mais personalizados, com indicações mais precisas e aplicações guiadas por imagem, sempre integradas a um programa adequado de reabilitação.
O PRP continua sendo uma ferramenta interessante da ortopedia moderna, mas deixou de ser visto como um tratamento milagroso.
Talvez a maior lição deixada pelos atletas que utilizaram a terapia seja justamente essa: no esporte e na medicina, raramente existe uma solução única. A recuperação é quase sempre resultado de um conjunto de estratégias bem indicadas e cuidadosamente planejadas.
O PRP pode fazer parte dessa equação. Mas, como a própria ciência vem mostrando, seu maior potencial não está em ser usado por todos, e sim em ser usado da maneira certa, no paciente certo e no momento certo.
Dr. Pedro Debieux Vargas Silva CRM/SP 121.778 | RQE 73.908
Ortopedista
Doutorado na Universidade Federal de São Paulo
Pós-doutorado na Universidade de Connecticut
Membro da Brazil Health
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Referências científicas
1.International Olympic Committee. Consensus Statement on Regenerative Medicine and Orthobiologics in Sports Medicine.
2.Hurley ET, et al. Experts Achieve Consensus on a Majority of Statements Regarding Platelet-Rich Plasma Treatments for Musculoskeletal Pathology. Arthroscopy. 2024.
3.Rothrauff BB, et al. Platelet-Rich Plasma in the Treatment of Musculoskeletal Conditions. The American Journal of Sports Medicine.
4.Di Martino A, et al. ESSKA-ICRS Consensus Recommendations on Platelet-Rich Plasma Injections for Knee Osteoarthritis. 2025.
5.Winkler T, et al. Evidence-Based Guidelines on Orthobiologics. EFORT Open Reviews. 2025.
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