Ortopedia e Traumatologia

Menos peso, mais movimento: como os novos medicamentos podem adiar a prótese de joelho e quadril

Para muitos pacientes com artrose, perder peso deixou de ser apenas uma recomendação genérica. Com a ajuda dos novos medicamentos para obesidade, a redução da dor e o adiamento de cirurgias já começam a aparecer na prática clínica e nos estudos científicos.

Por Dra. Camila Cohen Kaleka , 25/06/2026

5 min de leitura

Menos peso, mais movimento: como os novos medicamentos podem adiar a prótese de joelho e quadril

Quem convive com artrose no joelho ou no quadril sabe que a dor nem sempre surge apenas pelo desgaste natural das articulações. Em muitos casos, existe um fator silencioso que acelera o problema e dificulta o tratamento: o excesso de peso.

Durante anos, médicos orientaram seus pacientes a emagrecer para aliviar os sintomas da artrose. O conselho era correto, mas muitas vezes difícil de colocar em prática. Hoje, com a chegada de novos medicamentos para controle da obesidade, essa recomendação ganhou uma nova dimensão. Além de favorecer a perda de peso, essas terapias podem contribuir para reduzir a dor, melhorar a mobilidade e, em alguns casos, adiar a necessidade de uma cirurgia de prótese.

A relação entre obesidade e artrose é uma das mais bem estabelecidas da medicina. E compreender essa conexão ajuda a entender por que o emagrecimento se tornou uma ferramenta tão importante no tratamento.

Cada quilo a menos faz diferença nas articulações

Quando caminhamos, corremos ou simplesmente subimos escadas, os joelhos e quadris suportam cargas muito superiores ao peso corporal registrado na balança. Estudos mostram que cada quilo perdido pode representar uma redução de até quatro quilos de carga sobre os joelhos durante atividades diárias.

Na prática, isso significa que uma perda de dez quilos pode reduzir dezenas de quilos de pressão repetitiva sobre uma articulação já comprometida. Com menos sobrecarga mecânica, a dor tende a diminuir, a movimentação melhora e o paciente consegue retomar atividades que antes pareciam impossíveis.

Mas a relação entre obesidade e artrose não é apenas mecânica. O tecido gorduroso produz substâncias inflamatórias que circulam pelo organismo e podem contribuir para a piora da inflamação articular. Por isso, emagrecer também ajuda a reduzir processos inflamatórios que influenciam a evolução da doença.

O que os novos medicamentos estão mostrando

Nos últimos anos, medicamentos desenvolvidos inicialmente para diabetes e obesidade passaram a chamar atenção por seus efeitos indiretos sobre doenças musculoesqueléticas.

Pesquisas recentes envolvendo agonistas do receptor GLP-1, como a semaglutida, demonstraram resultados promissores em pacientes com obesidade e artrose de joelho. Um estudo publicado no New England Journal of Medicine mostrou que participantes que perderam peso com auxílio medicamentoso apresentaram melhora significativa da dor, da função física e da qualidade de vida.

Embora esses medicamentos não tratem diretamente a artrose nem recuperem a cartilagem já desgastada, eles atuam sobre um dos fatores mais importantes para a progressão da doença: o excesso de peso e inflamação.

Isso tem despertado interesse crescente entre ortopedistas e reumatologistas, especialmente para pacientes que ainda não apresentam indicação cirúrgica imediata ou que desejam postergar a colocação de uma prótese.

É importante ressaltar que nem todo paciente será candidato a esse tipo de tratamento. A indicação deve ser individualizada e feita após avaliação médica cuidadosa.

A melhor estratégia continua sendo a combinação de tratamentos

Apesar do entusiasmo gerado pelos novos medicamentos, é importante evitar a ideia de que existe uma solução única para a artrose.

Os melhores resultados costumam ocorrer quando o tratamento é integrado. Isso inclui controle do peso, atividade física supervisionada, fortalecimento muscular, fisioterapia, alimentação adequada e acompanhamento médico regular.

O fortalecimento da musculatura ao redor do joelho e do quadril continua sendo uma das medidas mais eficazes para proteger a articulação e melhorar a funcionalidade. Da mesma forma, hábitos saudáveis ajudam a preservar os ganhos obtidos com a perda de peso.

A cirurgia de prótese permanece sendo uma excelente alternativa quando a dor e a limitação funcional comprometem significativamente a qualidade de vida. No entanto, se for possível retardar esse momento com segurança, reduzindo sintomas e preservando a capacidade de movimento, o paciente ganha tempo e qualidade de vida.

A medicina vive um momento interessante no tratamento da obesidade e das doenças articulares. Pela primeira vez, dispomos de ferramentas capazes de atuar simultaneamente sobre fatores metabólicos e mecânicos que influenciam a evolução da artrose. Isso não significa que a cirurgia deixará de existir, mas abre uma oportunidade valiosa para que muitos pacientes convivam melhor com a doença por mais tempo, mantendo independência, mobilidade e bem-estar.

Dra. Camila Cohen Kaleka - CRM/SP 127.292 | RQE 57.765

Ortopedista

Mestrado na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo

Doutorado no Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein

Membro da Brazil Health

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Referências bibliográficas e fontes consultadas

• New England Journal of Medicine (2024). Once-Weekly Semaglutide in Persons with Obesity and Knee Osteoarthritis.

• American Academy of Orthopaedic Surgeons (AAOS).

• Osteoarthritis Research Society International (OARSI).

• Centers for Disease Control and Prevention (CDC) – Osteoarthritis and Obesity.

• Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR).

• World Obesity Federation.