Oncologia

Muito além do PSA: o risco de simplificar um debate que exige precisão e equidade

Equilíbrio é a palavra: diagnóstico com critério, menos exageros e foco em quem mais precisa.

Por Redação Brazil Health , 18/12/2025

4 min de leitura

Muito além do PSA: o risco de simplificar um debate que exige precisão e equidade

Passado o Novembro Azul, quando reforçamos a importância do diagnóstico precoce e do cuidado integral no câncer de próstata, uma decisão preliminar do Reino Unido trouxe um novo elemento ao debate internacional. O comitê nacional de rastreamento daquele país recomendou não usar o PSA em um programa populacional e concentrar a oferta de exames regulares apenas em homens portadores das variantes genéticas BRCA1 ou BRCA2, entre 45 e 61 anos.

O que está por trás da recomendação britânica

A pergunta que surge é direta: por que restringir um exame que, em muitos casos, permite identificar tumores ainda no início?

A justificativa apresentada pelo painel britânico envolve a preocupação com o diagnóstico de tumores indolentes, que não colocam a vida do paciente em risco, e com o potencial de tratamentos desnecessários. Essa discussão não é nova. Desde os primeiros estudos sobre rastreamento em próstata, ficou claro que o PSA, isoladamente, identifica tanto tumores agressivos quanto tumores de baixo risco. O desafio sempre foi separar esses grupos para evitar intervenções desnecessárias e, ao mesmo tempo, não perder a oportunidade de tratar quem realmente precisa.

Como a medicina atual evita exageros e erros

A prática moderna, porém, evoluiu. Hoje contamos com ferramentas que não existiam quando os grandes estudos de rastreamento foram conduzidos. A ressonância multiparamétrica, a análise detalhada do escore de Gleason e a vigilância ativa estruturada permitem estratificar o risco com mais precisão. É possível identificar, com maior segurança, quais tumores precisam ser tratados e quais podem ser acompanhados ao longo do tempo.

Isso significa que diagnóstico precoce não deve ser confundido com tratamento precoce. São etapas distintas. A decisão terapêutica precisa considerar o conjunto de informações clínicas, de imagem e patológicas, e não apenas o resultado de um exame inicial. O excesso de intervenções observado no passado não se deve ao PSA como ferramenta, e sim a uma interpretação menos refinada do risco.

Equidade e foco em quem mais precisa

Ao discutir políticas públicas de rastreamento, é importante considerar fatores como acesso, equidade e impacto real na mortalidade. Também é essencial ouvir as preocupações de grupos vulneráveis, como homens negros e aqueles com histórico familiar, que têm maior risco de doença agressiva. A falta de dados robustos nesses grupos não significa ausência de risco, e sim a necessidade de investir em pesquisas que os incluam de maneira adequada.

Minha visão é que a discussão não deve ser reduzida a rastrear ou não rastrear. O caminho mais consistente é qualificar o processo. Isso envolve investigar melhor, interpretar com mais precisão e agir de forma proporcional ao risco. A combinação entre PSA, ressonância e critérios objetivos de vigilância ativa tem potencial para reduzir danos e ampliar benefícios, sem perder a oportunidade de diagnosticar tumores que realmente ameaçam a vida.

A controvérsia no Reino Unido é um convite para aperfeiçoar o debate, não para encerrá-lo. O futuro do cuidado no câncer de próstata depende menos da proibição ou da liberação irrestrita do rastreamento e mais da nossa capacidade de usar as ferramentas disponíveis de forma responsável, atualizada e centrada no paciente. É esse equilíbrio que deve orientar tanto as decisões clínicas quanto as políticas públicas.

Sobre André Sasse

Dr. André Deeke Sasse é oncologista clínico e diretor da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC). É fundador e CEO do Grupo SOnHe, coordenador da Oncologia do Hospital Vera Cruz e professor do programa de pós-graduação da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP.