Pesquisa brasileira amplia as possibilidades no tratamento do glaucoma
Pesquisa multicêntrica brasileira mostra que o laser de micropulso pode reduzir a pressão ocular e diminuir o uso de colírios, explica a oftalmologista Dra. Regina Cele.
Por Redação Brazil Health , 16/02/2026
6 min de leitura
O glaucoma é uma das principais causas de cegueira irreversível no mundo e representa um grande desafio para a saúde pública. Silenciosa em suas fases iniciais, a doença pode evoluir lentamente até comprometer de forma definitiva o nervo óptico, responsável por levar as imagens do olho ao cérebro. Estima-se que milhões de pessoas convivam com glaucoma sem diagnóstico, o que torna o avanço da pesquisa e o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas ainda mais relevantes.
Novo estudo brasileiro em foco
Neste ano, publicamos, na revista Clinical Ophthalmology, um estudo multicêntrico brasileiro que avaliou uma técnica moderna chamada ciclofotocoagulação transescleral por micropulso (MP-TSCPC) no tratamento de diferentes tipos de glaucoma. O trabalho reuniu pesquisadores de diversos centros do Brasil, refletindo a realidade da prática clínica nacional e fortalecendo a contribuição científica brasileira no cenário internacional.
O glaucoma é uma doença crônica caracterizada, na maioria dos casos, pelo aumento da pressão intraocular. Essa pressão elevada danifica progressivamente o nervo óptico, levando à perda do campo visual e, em estágios avançados, à cegueira irreversível.
Um dos grandes desafios do glaucoma é o fato de ele não causar dor nem sintomas evidentes nas fases iniciais. Muitas pessoas só percebem que algo está errado quando a doença já se encontra em estágio avançado. Por isso, o diagnóstico precoce e o acompanhamento regular com o oftalmologista são fundamentais.
Além disso, o glaucoma não é uma doença única. Existem diversos tipos, como glaucoma de ângulo aberto, glaucoma de ângulo fechado, glaucomas secundários (associados a outras doenças), glaucomas congênitos, glaucomas refratários e os que não respondem bem aos tratamentos convencionais.
Cada um deles exige estratégias terapêuticas específicas. Historicamente, o tratamento do glaucoma começa com o uso de colírios, que ajudam a reduzir a pressão intraocular. Embora eficazes para muitos pacientes, os colírios exigem uso contínuo, disciplina rigorosa e podem causar efeitos colaterais, como irritação ocular, ardência, vermelhidão e impacto na superfície ocular.
Quando os colírios não são suficientes, entram em cena os procedimentos a laser e, em casos mais avançados, as cirurgias filtrantes, como a trabeculectomia ou o implante de dispositivos de drenagem.
Apesar de eficazes, essas cirurgias são mais invasivas e podem estar associadas a riscos e complicações, especialmente em pacientes com doença avançada, cirurgias prévias ou outras condições oculares associadas.
É nesse contexto que técnicas menos agressivas e mais seguras ganham espaço.
Como funciona o laser de micropulso
A ciclofotocoagulação transescleral por micropulso (MP-TSCPC) é uma técnica que utiliza energia laser aplicada externamente ao olho para atuar sobre o corpo ciliar, estrutura responsável pela produção do humor aquoso – o líquido que mantém a pressão intraocular.
O grande diferencial da técnica está no uso de laser no modo micropulso, que entrega a energia de forma intermitente, em pequenos pulsos, permitindo que o tecido tenha tempo de se recuperar entre as aplicações. Isso reduz o risco de danos excessivos às estruturas oculares, tornando o procedimento mais seguro quando comparado às técnicas contínuas tradicionais.
Na prática, a MP-TSCPC busca reduzir a produção do líquido intraocular, ajudando a diminuir a pressão dentro do olho sem a necessidade de incisões ou implantes.
Resultados: menos pressão e menos colírios
Um dos principais achados do estudo foi a redução média da pressão intraocular em aproximadamente 45% após o tratamento com MP-TSCPC.
Essa redução é clinicamente relevante, pois a diminuição da pressão é o principal fator associado à estabilização da progressão do glaucoma. Quanto menor a pressão, menor o risco de dano adicional ao nervo óptico.
Além disso, os resultados mostraram que essa redução foi consistente ao longo do acompanhamento e observada em diferentes subgrupos de pacientes, independentemente do tipo de glaucoma ou de tratamentos prévios.
Outro dado importante foi a redução significativa no número de colírios utilizados pelos pacientes após o procedimento.
Para quem convive com glaucoma, a carga de colírios pode ser pesada: múltiplas aplicações diárias, efeitos colaterais locais e impacto na qualidade de vida. Reduzir a dependência desses medicamentos representa não apenas conforto, mas também melhor adesão ao tratamento.
Muitos pacientes relatam dificuldade em manter o uso correto dos colírios ao longo dos anos, especialmente idosos ou pessoas com rotinas complexas. Nesse sentido, a MP-TSCPC surge como uma aliada importante.
Historicamente, procedimentos que atuam sobre o corpo ciliar eram reservados apenas para olhos com visão muito comprometida, devido ao risco de complicações. No entanto, o estudo brasileiro demonstrou que, quando realizada com a técnica de micropulso, a ciclofotocoagulação apresenta baixo índice de complicações.
A maioria dos pacientes manteve a visão estável ao longo do acompanhamento, e eventos adversos graves foram raros. Esse perfil de segurança amplia significativamente o potencial de indicação da técnica.
Hoje, a MP-TSCPC pode ser considerada não apenas para glaucomas avançados ou refratários, mas também para olhos com visão funcional, desde que bem indicada, como uma alternativa intermediária entre o tratamento exclusivamente medicamentoso e cirurgias mais invasivas.
Ela amplia o leque de opções terapêuticas e permite uma abordagem mais individualizada, respeitando o estágio da doença, o perfil do paciente e suas necessidades. Mais do que substituir outras técnicas, a MP-TSCPC se soma às estratégias existentes, oferecendo ao oftalmologista mais ferramentas para preservar a visão.
O glaucoma continua sendo um grande desafio, mas estudos como este mostram que o avanço científico traz novas possibilidades. A MP-TSCPC se destaca como uma técnica moderna, eficaz e segura, com resultados consistentes em diferentes tipos de glaucoma.
Regina Cele – CRM SP 84485 | RQE 47663
Oftalmologista especializada em glaucoma e catarata.
Mestre em Oftalmologia pela Universidade Federal de São Paulo.
Membro da Sigma Xi – The Scientific Research Honor Society.
Sócia e diretora da HCLOE Oftalmologia Especializada.
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