Diretriz nacional atualiza tratamento do câncer de bexiga e foca em evitar recidivas
Documento lançado por seis entidades reúne recomendações para diagnóstico, acompanhamento e terapias, com destaque para medidas que reduzem o risco de o tumor voltar e para novas opções em casos avançados.
Por Redação Brazil Health , 01/07/2026
4 min de leitura
Seis entidades brasileiras ligadas ao cuidado oncológico lançaram as primeiras Diretrizes Brasileiras Conjuntas para o Tratamento do Câncer de Bexiga 2026. O texto reúne recomendações atualizadas para orientar médicos e serviços de saúde sobre diagnóstico, acompanhamento e tratamento, com foco em reduzir recidivas e padronizar condutas no sistema público e na rede privada.
A publicação ocorre em um cenário de alta carga da doença: a estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA) é de 13.110 novos casos no Brasil neste ano. Entre 2021 e 2025, a média foi de 14 mortes por dia, segundo o Sistema de Informações de Mortalidade do Ministério da Saúde.
Participaram da elaboração a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT), Sociedade Brasileira de Patologia (SBP), o projeto CABEM mais vidas (da FMABC) e o Instituto Oncoguia. “O câncer de bexiga é uma doença frequentemente subdiagnosticada e que exige abordagem multidisciplinar”, afirmou o urologista Roni Fernandes, presidente da SBU.
Medidas para reduzir o risco de o câncer voltar
Um dos eixos do documento é reforçar estratégias já respaldadas por evidências, mas nem sempre aplicadas de forma consistente. Entre elas, está a recomendação de uma segunda avaliação cirúrgica algumas semanas após a primeira retirada do tumor, em casos selecionados, para identificar possível doença residual.
Outra orientação destacada é a aplicação de quimioterapia diretamente na bexiga nas primeiras 24 horas após a cirurgia em pacientes específicos, medida que, segundo o material, pode reduzir em cerca de 35% o risco de recorrência. “Sabemos que uma parcela importante dos pacientes pode apresentar doença residual após a primeira cirurgia. Por isso, a reavaliação cirúrgica em casos selecionados passa a receber ainda mais destaque”, disse o urologista Fernando Korkes, coordenador do Departamento de Uro-oncologia da SBU.
Para o câncer de bexiga não-músculo invasivo, a diretriz mantém a BCG intravesical como uma das principais estratégias para diminuir a chance de retorno da doença. Korkes afirma que, em situações de risco muito alto, a retirada da bexiga pode ser considerada, e que outros esquemas podem entrar no planejamento conforme o perfil do paciente.
Estratificação de risco e papel do diagnóstico
O documento também propõe uma estratégia mais clara para classificar pacientes pelo risco de progressão, buscando orientar desde o acompanhamento mais conservador até tratamentos mais intensivos. Para a patologista Isabela Werneck da Cunha, da SBP, a padronização dos laudos é central nesse processo. “É a partir do laudo anatomopatológico que são definidos fatores prognósticos essenciais para a estratificação de risco e para a seleção do tratamento mais apropriado”, afirmou.
Novas terapias e cuidado integrado
As diretrizes incorporam evidências recentes sobre imunoterapia e terapias-alvo, ampliando possibilidades em tumores agressivos ou avançados e incluindo recomendações para tratamentos antes e depois da cirurgia. O texto também dedica uma seção à experiência do paciente e sugere estratégias de navegação para reduzir atrasos no diagnóstico, melhorar a compreensão das etapas do cuidado e apoiar a adesão ao seguimento.
“Essa atualização reforça que o tratamento do câncer de bexiga precisa ser pensado de forma integrada, com decisões compartilhadas, atuação multiprofissional e suporte ao paciente ao longo de toda a jornada”, disse Luciana Holtz, presidente do Instituto Oncoguia.
O documento reforça ainda a importância de equipes multidisciplinares, com participação de radioterapeutas em casos em que a preservação da bexiga pode ser considerada. Para o radio-oncologista Wilson José de Almeida Jr, presidente da SBRT, diretrizes colaborativas ajudam a reduzir variações de conduta e a alinhar a prática clínica às melhores evidências.
Fatores de risco e sinais de alerta
O tabagismo segue como principal fator de risco para câncer de bexiga. A diretriz também cita exposição ocupacional a substâncias químicas, contato prolongado com derivados de petróleo, radioterapia pélvica prévia, uso prolongado de alguns medicamentos, idade avançada e histórico familiar ou síndromes genéticas como fatores associados.
O sinal de alerta mais frequente é sangue na urina, geralmente sem dor. Também merecem avaliação aumento da frequência urinária, ardência ao urinar, urgência urinária e dor pélvica ou lombar em fases avançadas. Fernandes reforça que qualquer episódio de sangue na urina deve ser investigado, sobretudo em fumantes e pessoas acima dos 50 anos: “Esse tipo de sintoma não pode ser minimizado. O diagnóstico precoce salva vidas”.
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