Testes de DNA

Testes de DNA ganham força no Brasil e acendem debate sobre saúde e privacidade

Com custos em queda e IA em alta, genômica pessoal avança, mas levanta dúvidas sobre acesso, interpretação e proteção de dados no país.

Por Redação Brazil Health , 03/01/2026

6 min de leitura

Testes de DNA ganham força no Brasil e acendem debate sobre saúde e privacidade

Os testes de DNA deixaram os laboratórios e chegaram ao grande público. Impulsionado por kits vendidos online e em farmácias, o mercado global da chamada genômica pessoal já movimenta cerca de US$ 12 bilhões e pode ultrapassar US$ 90 bilhões até 2034. Junto com a popularização, cresce a discussão sobre o que esses exames realmente entregam em prevenção, como integrar a tecnologia ao sistema de saúde e como proteger a privacidade dos usuários.

A queda abrupta no custo do sequenciamento, somada ao avanço da inteligência artificial e ao crescimento de bancos de dados genéticos, acelera a medicina personalizada em diferentes países. Estados Unidos, Reino Unido e Coreia do Sul já começam a incorporar os testes para estimar risco de câncer, doenças do coração e reações a medicamentos. No Brasil, o movimento ganha tração com empresas como Genera, Mendelics, Fleury e Sabin, que apostam em traduzir a ciência para a realidade nacional.

Brasil, um laboratório genético a céu aberto

“O Brasil é um dos países mais diversos geneticamente no mundo, resultado da mistura de diferentes povos ao longo da nossa história. Isso torna a nossa população única e extremamente rica para estudos em genômica”, diz o médico geneticista Ricardo Di Lazzaro, cofundador da Genera, que acaba de alcançar a marca de 500 mil testes realizados. “Essa diversidade coloca o Brasil em uma posição estratégica para estar na vanguarda da genômica mundial, contribuindo com dados que dificilmente seriam encontrados em outras regiões.”

Essa singularidade foi reforçada por uma pesquisa da Universidade de São Paulo, que identificou 8,7 milhões de variantes genéticas inéditas ao analisar o DNA de mais de 2.700 brasileiros. O resultado indica um enorme potencial para a medicina personalizada. O desafio, no entanto, é transformar essa riqueza de dados em benefício de saúde pública, enfrentando barreiras de acesso, infraestrutura e regulação.

Da curiosidade à prevenção

Muita gente entra nesse universo pelos relatórios de ancestralidade — conhecer origens europeias, africanas ou indígenas costuma ser o primeiro passo. “A curiosidade sobre ancestralidade é, muitas vezes, o primeiro passo para as pessoas conhecerem a genética. O desafio é transformar essa experiência em um passo para o cuidado preventivo”, afirma Di Lazzaro. “Quando o cliente percebe que aquele dado pode ajudar em escolhas de estilo de vida, acompanhamento médico e até decisões sobre o futuro, o teste deixa de ser apenas uma curiosidade e passa a ser uma ferramenta de saúde.”

Na prática clínica, a aplicação começa a se consolidar. No aparelho digestivo, a identificação de mutações hereditárias pode ser decisiva. “Os testes de predisposição identificam indivíduos com risco aumentado para doenças como câncer colorretal hereditário, poliposes e distúrbios metabólicos ligados à obesidade. Quando feitos precocemente, permitem vigilância direcionada, diagnóstico antecipado e intervenções preventivas — reduzindo o número de casos e mortes relacionadas a essas doenças e orientando decisões terapêuticas mais seguras”, explica o cirurgião Dr. Antonio Couceiro Lopes.

Ele cita o câncer colorretal como exemplo: “Detectar mutações de predisposição como na síndrome de Lynch possibilita rastreamento intensivo, prevenção familiar e cirurgias mais adequadas. O diagnóstico genético precoce antecipa intervenções preventivas e personaliza o tratamento, com impacto real em sobrevida e qualidade de vida.”

Na geriatria, os testes também ganham espaço como apoio à longevidade saudável. “Na minha visão, esses testes representam uma importante ferramenta para uma medicina personalizada, principalmente em idosos com predisposição a múltiplas comorbidades. É possível identificar predisposições a doenças crônicas como hipertensão, osteoporose e até condições neurodegenerativas como o Alzheimer”, afirma a geriatra Dra. Juliane Pessequillo. “Com essa informação, conseguimos trabalhar a prevenção de forma mais precisa e individualizada, promovendo um envelhecimento com mais saúde, autonomia e qualidade de vida.”

A experiência do consumidor ajuda a ilustrar esse movimento. O empresário Wiliam Cook, 57, buscou o teste pela curiosidade sobre origens familiares e se surpreendeu com o resultado: “Eu imaginava que, devido ao sobrenome paterno, parte da minha ancestralidade era britânica, mas o resultado apontou que minha ancestralidade global era 61% proveniente do Norte da Itália e 15% dos Balcãs.” Segundo ele, o laudo de saúde trouxe “tranquilidade em relação a doenças genéticas” e confirmou exames clínicos já realizados, sem causar ansiedade.

Privacidade no centro do debate

Com o aumento exponencial de dados de DNA, a pergunta sobre quem acessa essas informações e com que finalidade ganhou prioridade. “Trabalhamos com um princípio muito claro: os dados genéticos pertencem ao cliente”, destaca Di Lazzaro. “Todo uso da informação só acontece com consentimento expresso, dentro dos limites legais e regulatórios. Comercialmente, não vendemos dados individuais nem utilizamos informações pessoais de forma que possa identificar alguém.”

O tema é sensível porque parte do setor, no exterior, baseia o negócio na monetização de grandes bancos de dados. No Brasil, a Genera afirma usar informações de forma agregada e anônima, com autorização do cliente e seguindo protocolos de segurança reconhecidos internacionalmente.

Enquanto isso, o horizonte tecnológico avança. Para Leonardo Vedolin, vice-presidente médico da Dasa, a próxima década e meia deve integrar terapia gênica, exames “multiômicos” — que analisam DNA, RNA, proteínas e microbioma — e inteligência artificial. “Projetando 15 anos à frente, veremos a consolidação da terapia gênica, a evolução dos diagnósticos multiômicos e a incorporação plena da inteligência artificial na medicina personalizada”, diz. “Esses três avanços combinados vão transformar completamente a forma como usamos a genética no dia a dia.”

Vedolin pondera, porém, que ampliar o acesso é essencial num país desigual. A oferta pelos planos e pelo SUS tende a crescer gradualmente, com prioridade para áreas de maior impacto, como oncologia, pediatria e farmacogenômica.

O preço do sequenciamento também empurra essa curva: o que custava quase US$ 100 milhões em 2001 hoje pode sair por menos de US$ 500. A democratização traz ganhos potenciais em prevenção e economia de recursos, mas cobra responsabilidade na interpretação de resultados e na proteção da privacidade.

No fim, o sucesso da genômica personalizada deve se medir pelo que muda na vida real das pessoas — com informação compreensível e aplicável. Como resume Di Lazzaro: “Nosso objetivo é que o teste seja útil e faça sentido para cada cliente, com informações aplicáveis de forma prática no dia a dia, sem excesso de tecnicidade. A genética não deve ser motivo de medo, mas uma ferramenta de conhecimento e prevenção.”