Ansiedade climática atinge 42% dos brasileiros; mulheres são as mais afetadas
Levantamento do Instituto Cactus com 10 mil participantes mostra alta de sintomas e queda no bem-estar emocional às vésperas da COP30
Por Redação Brazil Health , 11/11/2025
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A crise do clima já pesa na cabeça dos brasileiros. Quase 42% da população afirma ter sentido impacto das mudanças climáticas em sua saúde mental, segundo a 4ª coleta do Panorama da Saúde Mental, do Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel. O tema foi analisado pela primeira vez no estudo, que ouviu 10.025 pessoas com 16 anos ou mais em todo o país.
A preocupação é frequente: 54% dizem pensar diariamente ou semanalmente nos efeitos do clima extremo. O medo e a ansiedade aparecem como pano de fundo — 58% relatam nervosismo, ansiedade ou inquietação, 51% sentem medo e 44% se declaram excessivamente preocupados com o futuro próximo.
Mulheres relatam mais sintomas e responsabilidade
O recorte por gênero expõe diferenças marcantes. Entre as mulheres, 47,4% se preocupam diariamente com a crise climática, ante 27,9% dos homens. Quase metade delas (49,2%) diz que o clima já afetou sua saúde mental; entre eles, são 34,3%. Elas também apontam maior senso de dever individual: 47% afirmam que precisam agir para ajudar a resolver o problema, frente a 25,5% dos homens.
“As mudanças climáticas já têm um impacto direto no cotidiano e na saúde emocional de milhões de brasileiros. Não se trata apenas de uma questão ambiental, mas também humana e social”, diz Maria Fernanda Quartiero, diretora-presidente do Instituto Cactus. “Trabalhar para mitigar as mudanças climáticas é também cuidar da saúde mental individual e coletiva.”
Desastres e sintomas no dia a dia
Para 74,3% dos entrevistados, os desastres — como enchentes, queimadas e ondas de calor — já foram sentidos na pele. A ansiedade climática avança para o cotidiano: entre 34% e 36% relatam dificuldades para dormir, trabalhar ou manter relações sociais por causa do tema.
Há um caldo de fatores que amplia o estresse. A pesquisa indica que 83% estão preocupados com a situação financeira. O sono também vai mal: 72% dormiram menos de seis horas em ao menos uma noite nas últimas duas semanas e 64% sentiram sonolência intensa durante o dia.
O abalo na autoestima aparece no espelho e no desempenho: 48% se sentiram feios ou pouco atraentes e 35% chegaram a se considerar pouco inteligentes ao menos uma vez no período analisado.
Bem-estar emocional em queda
O Índice Contínuo de Avaliação da Saúde Mental (ICASM), que varia de 0 a 1000, recuou de 682 para 667 nesta edição. Jovens de 16 a 24 anos e mulheres — grupos prioritários do Instituto Cactus — seguem com indicadores piores do que a média da população.
Os resultados desta coleta foram divulgados às vésperas da COP30 e ajudam a dimensionar o elo entre clima e bem-estar emocional no Brasil, apontando que eventos extremos não apenas geram perdas materiais, mas também desencadeiam medo, insegurança e sobrecarga psicológica.
Realizada em 2025, a pesquisa utilizou recrutamento digital aleatório e incluiu moradores de todas as regiões. O módulo variável desta edição investigou especificamente a ansiedade climática, adicionando novas camadas à compreensão dos fatores que moldam a saúde mental no país.
Para o Instituto Cactus, os achados reforçam a necessidade de políticas públicas intersetoriais e estratégias de cuidado que considerem recortes geracionais e de gênero. A ideia é reduzir vulnerabilidades e promover uma rede de proteção que una prevenção, acesso a serviços e ações comunitárias.
Enquanto o aquecimento global acelera, o estudo mostra que acolher o sofrimento psíquico e ampliar a capacidade de resposta das cidades e dos serviços de saúde pode ser tão urgente quanto conter emissões e prevenir desastres.