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Troca de figurinhas pode ajudar crianças autistas a treinar socialização e frustrações

Psicóloga explica como álbuns e pacotinhos podem virar situações do dia a dia para trabalhar espera, negociação e inclusão, com apoio de adultos e da escola.

Por Redação Brazil Health , 08/06/2026

4 min de leitura

Troca de figurinhas pode ajudar crianças autistas a treinar socialização e frustrações

A febre dos álbuns e pacotinhos de figurinhas, comum em períodos de grandes campeonatos, pode ir além da brincadeira e se transformar em ferramenta prática para o desenvolvimento infantil. Especialistas apontam que o ato de abrir envelopes, lidar com repetidas e negociar trocas reúne desafios importantes para crianças – especialmente as neurodivergentes, como aquelas no espectro do autismo.

Segundo a psicóloga e neurocientista Mayra Gaiato, esse tipo de atividade reúne, ao mesmo tempo, expectativas, regras sociais e emoções que nem sempre são fáceis de administrar. “Quando uma criança abre um pacote de figurinhas, ela está lidando com expectativa, surpresa, recompensa, organização e interação social”, afirma. Para ela, o processo ajuda a treinar “espera, flexibilidade, negociação e tolerância à frustração”.

Em crianças neurodivergentes, a dificuldade pode ser maior por uma necessidade mais intensa de previsibilidade e por desafios em mudanças inesperadas. “Nem sempre a frustração aparece porque a criança é mimada ou porque está fazendo birra. Muitas vezes estamos diante de um cérebro que ainda está aprendendo a lidar com emoções difíceis”, diz Mayra.

Espera e frustração como parte do aprendizado

Além de aprender a perder e ganhar, a dinâmica do álbum cria um treino repetido de paciência: a figurinha desejada pode não vir no primeiro pacote – e, muitas vezes, nem no décimo. “Vivemos em uma época em que quase tudo é imediato. Mas a vida não funciona assim”, afirma a especialista. “Aprender a esperar, lidar com a expectativa e persistir diante das pequenas frustrações faz parte do desenvolvimento emocional.”

O efeito, segundo ela, tende a ser mais significativo quando adultos acompanham o processo, ajudando a nomear sentimentos, propor combinados e reforçar formas adequadas de lidar com o “não era essa” ou com a necessidade de esperar a vez.

Quando o álbum vira porta de entrada para a inclusão

Em Porto Alegre, a jornalista Débora Saueressig relata que o interesse do filho Benjamin, de sete anos, pelas figurinhas abriu uma chance de aproximação com colegas – ainda que nem sempre de forma automática. “Muitas vezes o Benjamin quer participar, observa as conversas, demonstra interesse, mas nem sempre os outros colegas percebem isso ou tomam a iniciativa de incluí-lo”, conta.

Para ela, o tema em comum facilita o contato inicial. “Quando existe um assunto que mobiliza todas as crianças, fica mais fácil criar pontes. As figurinhas oferecem um tema comum, uma possibilidade de aproximação”, diz.

Mayra concorda e destaca o valor do “interesse compartilhado” para crianças que têm mais dificuldade de entrar em grupos já formados. “Quando existe um assunto que mobiliza todo mundo, como o álbum, surge uma oportunidade natural de conexão”, afirma.

Dicas práticas para apoiar a criança nas trocas

Mayra sugere que famílias e escolas usem a brincadeira como treino de interação, com combinações simples e previsíveis. Entre as estratégias, estão:

  • olhar o álbum junto com a criança e identificar o que os colegas mais comentam;
  • separar figurinhas repetidas para levar em dias de troca;
  • simular trocas em casa antes de situações reais;
  • ensinar frases curtas para iniciar conversa, como “Você quer trocar?”;
  • procurar encontros de troca em ambientes mais acolhedores, com mediação de adultos;
  • valorizar tentativas de interação, mesmo quando não saem como o esperado.

Na escola, a orientação é semelhante: criar momentos organizados de troca pode ajudar quem tende a ficar isolado a participar. “Pequenos convites fazem diferença. Quando uma criança é chamada para mostrar uma figurinha, participar de uma troca ou simplesmente entrar na conversa, ela começa a construir algo muito importante: o sentimento de pertencimento”, afirma Mayra.

Para a especialista, a principal mudança é de olhar: entender que, enquanto as crianças colecionam, estão praticando habilidades para a vida em grupo. “As crianças acreditam que estão apenas colecionando figurinhas, mas o cérebro está aprendendo muito mais do que isso. Está aprendendo a conversar, negociar, esperar, perder, ganhar, observar o outro e construir relações”, resume.