Cirurgia Oncológica

Uso de canetas para emagrecer acende alerta sobre saúde mental e corpo

Estudo com 160 mil pacientes liga GLP-1 a eventos psiquiátricos; especialista relata distorções na autoimagem e defende acompanhamento psicológico e médico.

Por Redação Brazil Health , 13/02/2026

3 min de leitura

Uso de canetas para emagrecer acende alerta sobre saúde mental e corpo

O uso de canetas para emagrecer à base de agonistas do GLP-1, como semaglutida e tirzepatida, vem se expandindo além das indicações médicas e acende um alerta para efeitos na saúde mental e na percepção do próprio corpo. A tendência atinge pessoas que buscam perder peso por pressão estética ou social, o que amplia riscos quando não há avaliação clínica e psicológica adequada.

Esses fármacos – desenvolvidos para tratar diabetes tipo 2 e obesidade – passaram a circular entre usuários sem diagnóstico formal, em um cenário de forte valorização da magreza. Profissionais de saúde têm observado, ao lado das mudanças metabólicas, impactos emocionais e comportamentais que merecem atenção.

O que diz a pesquisa

Em março de 2024, estudo publicado na Scientific Reports (grupo Nature) analisou dados de mais de 160 mil pacientes nos Estados Unidos e identificou maior incidência de depressão, ansiedade e ideação suicida entre usuários de agonistas de GLP-1, quando comparados a quem não usou essas medicações.

Os autores não estabeleceram relação de causa e efeito, mas recomendaram monitoramento psicológico durante o tratamento, sobretudo em pessoas com histórico de sofrimento psíquico ou maior vulnerabilidade emocional.

Impactos na clínica e na identidade corporal

Na prática clínica, a psicóloga Maria Klien relata mudanças que vão além das estatísticas. “Tenho percebido um número maior de pessoas extremamente magras, algumas com sinais claros de anorexia, tanto na clínica quanto em ambientes como academias”, afirmou.

Para ela, a discussão não deve se limitar aos efeitos biológicos. “Quando digo que essas canetas estão sequestrando nossa identidade, falo sobre pessoas que passam a se reconhecer apenas pelo tamanho do próprio corpo, como se toda a existência fosse reduzida a essa métrica”, disse. Segundo a profissional, há pacientes que “olham no espelho e não conseguem reconhecer a própria realidade corporal”.

Klien aponta que parte desse movimento pode refletir processos psíquicos regressivos. “Em alguns casos, aparece um retorno simbólico ao corpo infantil, um corpo pequeno, que comunica necessidade de cuidado. É um pedido de socorro que não consegue ser formulado em palavras”, explicou.

Sinais físicos e segurança

Além de efeitos emocionais, a psicóloga menciona queixas físicas recorrentes, como queda de cabelo, fraqueza e mal-estar persistente. Autoridades de saúde do Reino Unido divulgaram alerta sobre relatos de pancreatite aguda associados a agonistas de GLP-1, reforçando a importância de acompanhamento médico e atenção a sintomas como dor abdominal intensa, náuseas e vômitos.

Para Klien, o emagrecimento rápido, quando desvinculado de apoio emocional, tende a amplificar conflitos prévios. “A medicação não cria o sofrimento, mas pode amplificar aquilo que já estava presente e sem espaço de escuta”, afirmou.

Ela defende que intervenções que alteram de forma intensa o peso incluam avaliação psicológica sistemática. “Investigar a relação da pessoa com comida, controle, autoestima e imagem corporal precisa fazer parte do processo terapêutico”, concluiu.