Paixão ou amor maduro: como reconhecer idealização e evitar relações tóxicas
No Dia dos Namorados, especialista explica por que o encantamento pode virar dependência e como construir vínculos mais reais, com espaço para liberdade e diálogo.
Por Redação Brazil Health , 11/07/2026
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O começo de uma relação costuma vir acompanhado de euforia, sensação de completude e a impressão de que o outro “é tudo”. Mas esse encantamento, embora comum, pode esconder armadilhas emocionais quando a idealização vira necessidade e a relação passa a funcionar como promessa de preencher carências antigas.
O psicanalista e médico Paulo Azevedo explica que o apaixonamento pode confundir percepção e desejo. “O estado de apaixonamento é um estado de loucura”, afirma o especialista, ao descrever como, nessa fase, muitas pessoas passam a acreditar que podem ser tudo para o outro — e que o outro também corresponderá a uma imagem “mágica” construída pela própria fantasia.
Na prática, isso pode criar uma dinâmica de fusão: duas pessoas que deixam de se ver como indivíduos e passam a buscar no relacionamento a solução para inseguranças e vazios pessoais. Quando a realidade aparece — limites, diferenças, frustrações — o choque tende a ser doloroso.
Quando a busca por amor vira prisão
A procura por acolhimento e pertencimento faz parte da vida, especialmente em períodos de solidão e carência. O problema, segundo Azevedo, é quando essa necessidade se transforma numa exigência impossível: esperar que o parceiro resolva todas as faltas, reconheça a todo momento a indispensabilidade do outro e sustente uma sensação permanente de plenitude.
É nesse terreno que podem surgir relações marcadas por ciúmes excessivos, possessividade e controle. O médico alerta que alguns vínculos passam a “privar o outro de seus desejos”, criando dependência e vulnerabilidade. “Ouso chamar de vampirismo”, diz Azevedo, ao se referir a relações em que um parceiro “suga” a autonomia do outro e tenta impedir sua individualidade.
Esses sinais costumam aparecer em comportamentos cotidianos: cobranças constantes, invasão de privacidade, isolamento de amigos e família, chantagens emocionais e a ideia de que amar significa abrir mão de si. A pergunta que fica, aponta o especialista, é se o amor é sempre incondicional — ou se escolhas afetivas podem ser guiadas por uma busca absoluta, e muitas vezes improvável, por completude.
Rompimentos e o fim da fantasia
Na clínica, o impacto da idealização também aparece quando a paixão funciona como fuga. Azevedo relata o caso de um homem de 65 anos, executivo bem-sucedido e casado há décadas, que atravessava um quadro de sofrimento emocional com sinais de depressão. Ao se envolver com uma mulher mais jovem, a sensação foi de “potência” e liberdade, como se pudesse viver sem limites.
Com o tempo, porém, o relacionamento extraconjugal deixou de sustentar a fantasia: a parceira se sentiu sufocada e quis retomar a própria vida, enquanto ele tentava manter, ao mesmo tempo, o casamento e a paixão. O médico descreve que a frustração do rompimento ajudou o paciente a encarar limites e a rever uma postura marcada por onipotência e desejo de controle.
Separações, nesses casos, podem funcionar como um ponto de virada: o fim do enredo idealizado expõe o que estava sendo negado — tanto na relação quanto na própria história emocional de quem ama.
Existe um amor possível
Para Azevedo, um vínculo mais saudável não nasce da promessa de “ser tudo”, mas da construção gradual de confiança, presença e realidade. Ele destaca que, desde cedo, todos vivem algum grau de carência e necessidade de cuidado — e que experiências iniciais de acolhimento podem favorecer relações mais seguras ao longo da vida.
Quando há mais equilíbrio emocional e a relação consegue combinar prazer com realidade, a paixão pode se transformar em amor maduro. Isso envolve tolerar frustrações, conversar sobre limites, aceitar imperfeições e permitir que cada um mantenha sua identidade.
Em vez de máscaras e performances, a proposta é um relacionamento que comporte fragilidades, verdades e diferenças. “Eu acredito que o amor é movimento e vida”, afirma Azevedo, ao defender a ideia de um vínculo que se transforma com o tempo e encontra sentido não na idealização, mas na capacidade de seguir junto “enquanto durar”.