Meningite meningocócica B avança no Brasil e reacende debate sobre vacina no SUS
Nota técnica da Sociedade Brasileira de Pediatria aponta mudança no perfil da doença: o sorogrupo B já responde pela maioria dos casos identificados, sobretudo em bebês, e reforça a discussão sobre estratégias de prevenção.
Por Redação Brazil Health , 10/07/2026
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A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) divulgou uma nota técnica que atualiza o cenário da doença meningocócica no Brasil e reúne evidências sobre a vacina meningocócica B recombinante (4CMenB) em lactentes. O documento ganha peso após uma mudança no perfil da infecção: o meningococo B passou a ser o principal sorogrupo relacionado aos casos no país.
De acordo com a SBP, em 2025 o sorogrupo B respondeu por 55% dos casos de doença meningocócica com identificação do tipo de meningococo. Entre bebês menores de 1 ano, faixa etária com maior risco de quadros graves, esse percentual chegou a 73% dos casos identificados.
Por que a doença preocupa
A doença meningocócica é causada pela bactéria Neisseria meningitidis e pode se manifestar como meningite, uma inflamação das membranas que envolvem o cérebro e a medula espinhal, ou como meningococcemia, uma infecção generalizada que pode evoluir rapidamente para choque e falência de múltiplos órgãos. Embora possa atingir qualquer idade, há dois picos de incidência: em menores de 1 ano e em adolescentes.
Para a pediatra Anna Dominguez Bohn, o tema exige atenção porque a infecção pode evoluir de forma rápida e imprevisível. “Mesmo com diagnóstico e tratamento adequados, até duas em cada dez crianças podem morrer. Quando há atraso no diagnóstico, esse risco pode chegar à metade dos casos. Entre os sobreviventes, até uma em cada cinco pode conviver com sequelas permanentes, como perda auditiva, déficits neurológicos e comprometimento motor”, afirma.
O que muda na prevenção
Historicamente, o sorogrupo C foi o principal causador de casos no Brasil, o que levou à inclusão da vacina meningocócica C no Programa Nacional de Imunizações (PNI) em 2010. Com o tempo, a vacina meningocócica ACWY passou a ser oferecida no SUS para grupos específicos. Já a vacina contra o meningococo B ainda não faz parte do calendário rotineiro para bebês na rede pública.
A nota lembra que a 4CMenB já foi analisada para incorporação ao PNI para crianças menores de 1 ano, mas a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) emitiu parecer desfavorável à inclusão na ocasião. A SBP sustenta que o acúmulo de novas evidências e a mudança epidemiológica tornam necessária uma reavaliação do tema.
“As bactérias sofrem mudanças ao longo do tempo, e a epidemiologia da doença meningocócica acompanha essas transformações. Hoje, o meningococo B responde pela maior parte dos casos identificados no país. É fundamental que as estratégias de prevenção sejam continuamente reavaliadas com base nas evidências científicas e na realidade epidemiológica brasileira”, diz a pediatra.
Evidências e acesso à vacina
Segundo a SBP, dados de países que incorporaram a 4CMenB a programas públicos indicam queda importante dos casos causados pelo sorogrupo B em crianças vacinadas. “Em países que adotaram a vacina, mais de oito em cada dez casos da doença causada pelo meningococo B podem ser prevenidos entre crianças adequadamente vacinadas”, afirma Anna.
No Brasil, a 4CMenB está aprovada para uso a partir dos 2 meses de idade e é encontrada na rede privada. Para a SBP, acompanhar de forma contínua a circulação dos sorogrupos e revisar as decisões de saúde pública é parte central da estratégia para reduzir mortes e sequelas associadas à doença meningocócica.
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