Cirurgia Geral

Atraso no diagnóstico de Crohn triplica risco de cirurgia em crianças, aponta estudo

Pesquisa com 124 pacientes identificou demora média de 17 meses para confirmar a doença; sintomas podem ser confundidos com problemas comuns e, quando o diagnóstico chega, parte já tem complicações.

Por Redação Brazil Health , 11/04/2026

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Atraso no diagnóstico de Crohn triplica risco de cirurgia em crianças, aponta estudo

Um estudo liderado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) identificou que crianças e adolescentes no Brasil esperam, em média, 17 meses entre os primeiros sintomas e o diagnóstico da Doença de Crohn. Segundo a pesquisa, esse intervalo está associado a um risco três vezes maior de necessidade de cirurgia, o que aumenta a chance de complicações e de perda de parte do intestino.

Os dados, publicados em março de 2026 no Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition, acompanharam por 18 meses 124 pacientes pediátricos atendidos em serviços das regiões Sudeste, Nordeste e Sul, incluindo unidades do Hospital das Clínicas da FMUSP.

A Doença de Crohn é uma condição inflamatória crônica que pode atingir diferentes partes do tubo digestivo. Em crianças, o diagnóstico precoce é considerado crucial porque a inflamação persistente pode afetar o crescimento, a nutrição e a qualidade de vida, além de elevar o risco de complicações que exigem cirurgia.

Sintomas podem não parecer intestinais

Um dos motivos para a demora, segundo o estudo, é que a apresentação da doença nem sempre inclui sinais considerados típicos. Quando o comprometimento é no intestino delgado, a diarreia com sangue, por exemplo, pode não ser o sintoma predominante, o que dificulta a suspeita clínica.

Nesse cenário, manifestações como dor abdominal persistente, emagrecimento e queixas que podem ser interpretadas como gastrite tendem a ser subestimadas ou tratadas como problemas comuns. Quando o diagnóstico finalmente é confirmado, 42% dos pacientes já apresentam atraso de crescimento, de acordo com os dados analisados.

A coordenadora do estudo, a pediatra e pesquisadora da FMUSP Jane Oba, avalia que o principal obstáculo está na etapa inicial do atendimento. “O principal gargalo é educacional. A doença ainda não está incorporada ao raciocínio clínico de muitos profissionais, o que faz com que sintomas persistentes sejam tratados como quadros comuns”, afirmou.

Subnotificação e impacto no tratamento

Para os autores, o atraso ajuda a entender por que a Doença de Crohn ainda pode estar subnotificada no país, especialmente na faixa pediátrica. Embora a incidência esteja em alta em diferentes regiões do mundo, os números nacionais em crianças seguem abaixo dos observados em países desenvolvidos, o que pode refletir dificuldades de acesso ao diagnóstico e baixa suspeição na prática clínica.

“O atraso no diagnóstico é um fator modificável. Se conseguimos reconhecer mais cedo, conseguimos mudar completamente a trajetória da doença”, disse Oba.

Nutrição como terapia ainda é pouco usada

O estudo também aponta um distanciamento entre o que é recomendado internacionalmente e o que ocorre na rotina de atendimento. A Nutrição Enteral Exclusiva (NEE), considerada opção de primeira linha para crianças por reduzir a necessidade de corticoides, ainda é pouco utilizada no Brasil, segundo os pesquisadores.

Entre as barreiras citadas estão custo, dificuldades logísticas e falta de padronização nacional, o que pode levar ao uso mais frequente de medicamentos associados a efeitos adversos relevantes para o desenvolvimento infantil.

A pesquisa reuniu instituições como FMUSP, Hospital Israelita Albert Einstein, Unicamp, UFPE, Santa Casa de Porto Alegre e UFRJ. Outro achado relatado foi que o padrão da doença observado em crianças brasileiras, em uma população miscigenada, se aproximou mais do descrito em países asiáticos do que em populações europeias e norte-americanas, reforçando a necessidade de estratégias adaptadas à realidade do país.