Medicina Intensiva

Estudo De CAR-T Alogênica Aponta Novo Horizonte Para Imunoterapia No Câncer Renal

Estudo internacional indica avanços com terapia celular pronta para uso no câncer renal, mostrando respostas animadoras em pacientes já tratados com outras opções.

Por Redação Brazil Health , 01/07/2026

4 min de leitura

Estudo De CAR-T Alogênica Aponta Novo Horizonte Para Imunoterapia No Câncer Renal

Com abordagem inédita, pesquisa sinaliza nova fase da imunoterapia em pacientes com carcinoma de células claras do rim

Uma das grandes apostas da ASCO 2025 (American Society of Clinical Oncology), o maior congresso de oncologia do mundo, no tratamento do câncer renal vem de uma tecnologia já consolidada em tumores hematológicos, mas ainda incipiente em tumores sólidos: as terapias celulares CAR-T. O estudo de fase 1 TRAVERSE, que avalia a terapia ALLO-316 em pacientes com carcinoma de células claras do rim (ccRCC), apresentou dados atualizados que despertaram o interesse da comunidade médica.

O tratamento utiliza células CAR-T alogênicas, ou seja, provenientes de doadores saudáveis, programadas para atacar tumores que expressam CD70, um marcador altamente presente no ccRCC. Trata-se de uma abordagem “off-the-shelf”, ou “pronta para uso”, em que as células já vêm preparadas e armazenadas para serem utilizadas quando necessário. Isso elimina a necessidade de coletar e modificar células do próprio paciente, como ocorre nas terapias autólogas, tornando o processo potencialmente mais rápido e padronizado.

“O que veremos nesta ASCO é uma possível expansão rumo a novos tratamentos que ainda não fazem parte da prática clínica, mas que mostram grande potencial para o futuro”, explica Denis Jardim, líder nacional da especialidade de tumores urológicos da Oncoclínicas. “O estudo TRAVERSE é um dos grandes destaques, por trazer uma proposta inovadora para o câncer renal, que é o uso das CAR-T Cells — algo até então praticamente restrito a linfomas e leucemias”.

Dados animadores com segurança manejável

Entre os 39 pacientes tratados, no qual muitos deles já haviam passado por várias outras terapias, foi observada uma resposta positiva ao tratamento em 20% dos casos com tumores que apresentavam o marcador CD70. Em um grupo menor, com alta presença desse marcador (em 50% ou mais das células tumorais), a taxa de resposta subiu para 33%. E o mais importante: todas as respostas continuavam ativas no momento da última análise, após cerca de 7 meses de acompanhamento.

Os efeitos colaterais foram, em geral, considerados controláveis. Apenas dois pacientes tiveram reações mais fortes que exigiram ajustes na dose, e apenas um teve um efeito colateral grave conhecido como síndrome de liberação de citocinas. Nenhum paciente teve um problema chamado doença do enxerto contra o hospedeiro (GvHD), que pode acontecer em tratamentos com células de doadores — e essa é uma boa notícia.

“Esses dados são animadores porque mostram que é possível levar uma terapia celular com células de doadores para tratar tumores sólidos, com segurança e sinais de eficácia, mesmo em pacientes que já tentaram várias outras opções de tratamento. Contudo, ainda são necessários mais estudos”, destaca Jardim.

Próximos passos

A Allogene Therapeutics, responsável pelo desenvolvimento da terapia, já concluiu a fase 1b do estudo TRAVERSE com dose expandida e anunciou que o ALLO-316 recebeu a designação de Terapia Avançada em Medicina Regenerativa (RMAT) pela FDA, reconhecimento que acelera o desenvolvimento de terapias com potencial transformador em doenças graves.

Além do ALLO-316, a empresa também apresentou na ASCO o andamento do ensaio ALPHA3, que avalia uma outra CAR-T alogênica, o cemacabtagene ansegedleucel (cema-cel), como tratamento de consolidação em primeira linha para linfoma de grandes células B. No entanto, no campo dos tumores sólidos, ALLO-316 é o carro-chefe.

Um novo horizonte no câncer renal

Apesar do pequeno número de pacientes e do caráter preliminar dos resultados, especialistas consideram o estudo ALLO-316 um divisor de águas. Pela primeira vez, uma CAR-T alogênica mostra atividade relevante em um tumor sólido agressivo, como o ccRCC, abrindo caminho para estudos mais robustos e, futuramente, para mudanças na prática clínica.

“Estamos diante de uma nova fronteira em imunoterapia. O sucesso das CAR-Ts em tumores hematológicos nos mostrou o caminho, e agora, com estudos como o ALLO-316, começamos a trilhar essa rota também nos tumores sólidos”, conclui Denis Jardim.