Preservação da fertilidade deve ser discutida logo após o diagnóstico de câncer
Especialistas alertam que quimioterapia, radioterapia e algumas cirurgias podem reduzir a chance de ter filhos; a orientação deve ocorrer logo após o diagnóstico, quando ainda há tempo para decidir sobre congelamento de óvulos, embriões ou espermatozoides.
Por Redação Brazil Health, 22/07/2026
4 min de leitura
Um diagnóstico de câncer costuma trazer decisões urgentes sobre exames e início do tratamento. Nesse processo, um tema ainda passa despercebido para muitos pacientes: como proteger a fertilidade antes de terapias que podem comprometer a capacidade de ter filhos no futuro.
Dados de uma pesquisa do IPEC indicam que 86% das mulheres desconhecem métodos de preservação da fertilidade durante o tratamento oncológico. Para médicos que atuam na oncologia e na reprodução, o número reforça a necessidade de informar pacientes logo nos primeiros dias após o diagnóstico.
Quimioterapia, radioterapia e algumas cirurgias podem afetar ovários e testículos, com impacto relevante no potencial reprodutivo. No caso das mulheres, o efeito pode ser acelerado: segundo estimativas citadas no material, um ciclo de quimioterapia de 12 a 16 semanas pode reduzir em até 10 anos o potencial reprodutivo, o que significa “envelhecer” a reserva ovariana em curto período. A probabilidade de gravidez natural também cai com a idade: por volta dos 30 anos, é estimada em 20% por ciclo menstrual; aos 40, pode ficar em torno de 5%.
Nos homens, um dos principais riscos é a queda na produção de espermatozoides, o que pode exigir estratégias de coleta e congelamento antes do tratamento.
Por que a conversa precisa ser rápida
Com mais diagnósticos precoces e tratamentos eficazes, cresce o número de sobreviventes que passam a planejar a vida depois do câncer, incluindo o desejo de ter filhos. No câncer de mama, por exemplo, estimativas citadas apontam que entre 40% e 50% das mulheres manifestam vontade de vivenciar a maternidade após o tratamento.
Para o oncoginecologista pélvico e mastologista José Carlos Sadalla, o tempo é um fator decisivo. “Quando trazemos a orientação sobre oncopreservação logo nos primeiros momentos do diagnóstico, criamos uma janela de oportunidade para que o paciente possa considerar a preservação do potencial reprodutivo antes do início do tratamento, e o tempo é essencial para essa tomada de decisão”, afirma.
Quais são as opções disponíveis
As estratégias variam conforme o sexo biológico e o quadro clínico. Entre as possibilidades citadas estão:
- Congelamento de óvulos, embriões ou tecido ovariano
- Transposição ovariana e cirurgias ginecológicas conservadoras, em situações selecionadas
- Congelamento de espermatozoides; e, quando não é possível coletar por ejaculação, extração cirúrgica (TESE)
Após essa etapa, quando indicado, podem ser usados tratamentos de reprodução assistida, como fertilização in vitro (FIV) e inseminação intrauterina, de acordo com a avaliação médica.
Relato de paciente e a vida após o tratamento
A fisioterapeuta Evelin Scarelli, vice-presidente do Instituto Oncoguia, foi diagnosticada com câncer de mama aos 23 anos e teve um filho em 2021, após concluir o tratamento, por meio de FIV. “Receber o diagnóstico de câncer é um momento de extrema vulnerabilidade. (...) A ciência permitiu que eu fizesse a FIV anos depois. (...) Por isso, se você, paciente oncológico deseja uma família, não encare a doença como uma sentença. Converse com o(a) seu(sua) médico(a)”, diz.
Especialistas lembram que nem sempre a preservação é possível ou indicada para todos os casos, e que a decisão depende do tipo de tumor, do tempo disponível até iniciar a terapia e das condições de saúde. Ainda assim, a orientação precoce pode ajudar pacientes a entender riscos, opções e limites antes do começo do tratamento.
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