Cirurgia Cardiovascular

Cirurgia pode aumentar sobrevida em câncer de fígado inicial com mais de um nódulo

Metanálise com quase 3 mil pacientes indica vantagem da ressecção do fígado sobre ablação e quimioembolização em casos selecionados, reacendendo o debate sobre diretrizes quando o transplante não é opção.

Por Redação Brazil Health , 11/04/2026

4 min de leitura

Cirurgia pode aumentar sobrevida em câncer de fígado inicial com mais de um nódulo

Uma metanálise brasileira sugere que a retirada cirúrgica de parte do fígado pode oferecer maior chance de sobrevivência a pessoas com câncer de fígado em estágio inicial que apresentam mais de um nódulo. O trabalho, publicado em 26 de fevereiro de 2026 no Journal of Liver Cancer, comparou a ressecção hepática com dois tratamentos comuns – a ablação por radiofrequência e a quimioembolização transarterial – e encontrou melhores resultados para a cirurgia em sobrevida global e sobrevida livre de doença.

O estudo reuniu dados de 2.869 pacientes a partir de 15 pesquisas (dois ensaios clínicos randomizados e 13 estudos de coorte). Participaram da investigação instituições como o A.C.Camargo Cancer Center (SP), a Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública e a Universidade Federal da Bahia.

O carcinoma hepatocelular é o principal tipo de câncer primário do fígado e costuma estar associado a doenças crônicas, como cirrose, hepatites virais e alterações metabólicas. Quando o tumor é identificado cedo, há espaço para tratamentos com intenção curativa, mas a escolha da estratégia é mais complexa nos casos com múltiplos nódulos.

O que a análise comparou

Os autores analisaram dois desfechos principais: a sobrevida global (tempo de vida após o tratamento) e a sobrevida livre de doença (tempo até o retorno do tumor). Em ambas as medidas, a cirurgia teve desempenho superior quando comparada à ablação por radiofrequência e à quimioembolização transarterial.

O cirurgião oncológico Felipe José Fernández Coimbra, autor sênior do estudo, afirma que os dados indicam que a cirurgia pode ter papel maior nesse cenário do que o previsto em muitos fluxos de tratamento. “O que essa metanálise mostra, de forma bastante robusta, é que a ressecção hepática não deve ser vista como uma exceção nesses pacientes. Em indivíduos bem selecionados, com função hepática preservada, a cirurgia oferece um controle tumoral mais duradouro e se traduz em maior sobrevida”, diz.

Por que a cirurgia pode levar vantagem

Segundo os autores, a diferença foi mais evidente na sobrevida livre de doença, o que pode refletir maior controle local quando o tumor é removido com margem de segurança. “Quando conseguimos retirar o tumor com margem adequada, estamos reduzindo de forma importante o risco de persistência microscópica da doença. Isso explica, em grande parte, por que a sobrevida livre de doença favorece a cirurgia”, afirma Coimbra.

Para quem o resultado vale – e quais são os limites

O estudo não defende cirurgia para todos os pacientes. Coimbra ressalta que a indicação depende de seleção criteriosa, especialmente em pessoas com boa reserva do fígado. “A mensagem central é que existe um grupo de pacientes, especialmente aqueles classificados como Child-Pugh A e alguns Child-Pugh B muito selecionados, nos quais a ressecção hepática é segura e oferece resultados oncológicos superiores”, afirma.

Os autores também apontam limitações: a maior parte dos estudos avaliados é observacional, o que pode favorecer a cirurgia por incluir, com mais frequência, pacientes em melhores condições clínicas. Além disso, a ressecção tende a trazer mais riscos no curto prazo e recuperação mais lenta, enquanto ablação e quimioembolização são menos invasivas e podem ser repetidas em caso de recidiva.

Para os pesquisadores, os achados reforçam a necessidade de decisões individualizadas em centros especializados, com avaliação detalhada da função hepática e discussão multidisciplinar. “A cirurgia não é isenta de riscos, e isso precisa ser ponderado. Mas quando olhamos para o horizonte de médio e longo prazo, especialmente em termos de sobrevida, os dados mostram que, em centros experientes, o benefício pode superar os riscos iniciais”, diz Coimbra.

Se confirmados por novos estudos prospectivos e ensaios clínicos, os resultados podem influenciar diretrizes e ampliar as opções com intenção curativa para pacientes com câncer de fígado inicial multinodular, especialmente quando o transplante não é uma alternativa viável no curto prazo.