Fisiologia

Estudo brasileiro aponta laser menos invasivo como opção para controlar o glaucoma

Por Redação Brazil Health , 16/05/2026

4 min de leitura

Estudo brasileiro aponta laser menos invasivo como opção para controlar o glaucoma

Técnica com micropulsos reduziu em média 45% a pressão dentro do olho e pode diminuir o uso de colírios, com baixo índice de complicações.

Uma pesquisa multicêntrica realizada no Brasil trouxe novos sinais de avanço no tratamento do glaucoma, doença que está entre as principais causas de cegueira irreversível no mundo e costuma evoluir de forma silenciosa. A oftalmologista Regina Cele explica que em muitos casos o problema só é percebido quando já há perda importante do campo visual, o que reforça a necessidade de diagnóstico precoce e acompanhamento regular.

O glaucoma é, em geral, uma doença crônica ligada ao aumento da pressão intraocular. Essa pressão elevada pode danificar progressivamente o nervo óptico, estrutura que leva as informações visuais do olho ao cérebro. “O maior risco é justamente a progressão sem sintomas nas fases iniciais, o que faz muita gente conviver com a doença sem saber”, alerta Regina Cele.

Embora frequentemente tratado como um único problema, o glaucoma reúne diferentes tipos, como o de ângulo aberto, o de ângulo fechado, formas secundárias (associadas a outras doenças), congênitas e casos refratários, que respondem mal às abordagens convencionais. Por isso, o tratamento costuma ser individualizado.

Em geral, a primeira linha envolve colírios para reduzir a pressão do olho. O desafio é que eles exigem uso contínuo e disciplina rigorosa, além de poderem causar desconfortos como ardor, irritação e vermelhidão. Quando os colírios não bastam, entram opções como procedimentos a laser e, em situações mais avançadas, cirurgias como trabeculectomia ou implantes de drenagem, abordagens eficazes, mas mais invasivas e com maior risco de complicações em alguns perfis de pacientes.

Como funciona o laser por micropulso

Nesse cenário, ganha espaço uma técnica mais recente chamada ciclofotocoagulação transescleral por micropulso (MP-TSCPC). O método usa laser aplicado externamente ao olho para atuar no corpo ciliar, estrutura responsável pela produção do humor aquoso, o líquido que influencia a pressão intraocular.

O diferencial está na forma de entrega da energia: em vez de um feixe contínuo, o laser é aplicado em micropulsos, de maneira intermitente, permitindo períodos de “descanso” do tecido entre as emissões. “A lógica do micropulso é reduzir a chance de dano excessivo às estruturas oculares, o que melhora o perfil de segurança quando comparado a técnicas mais antigas”, explica a oftalmologista.

Na prática, o procedimento busca diminuir a produção do líquido intraocular, ajudando a reduzir a pressão dentro do olho sem incisões ou implantes.

Queda de pressão e menos colírios

De acordo com os resultados observados no estudo brasileiro, houve redução média de aproximadamente 45% na pressão intraocular após o tratamento com MP-TSCPC, um dado considerado relevante porque controlar a pressão é o principal fator associado à desaceleração da progressão do glaucoma.

Outro achado importante foi a diminuição no número de colírios usados após o procedimento. Para muitos pacientes, especialmente idosos ou pessoas com rotinas complexas, manter múltiplas aplicações diárias ao longo dos anos pode ser um obstáculo. “Reduzir a dependência de colírios pode impactar diretamente a qualidade de vida e a adesão ao tratamento”, destaca a especialista.

O trabalho também apontou que a redução de pressão se manteve ao longo do acompanhamento e apareceu em diferentes grupos de pacientes, incluindo pessoas com tipos distintos de glaucoma e com histórico de tratamentos prévios.

Segurança e ampliação de indicações

Historicamente, procedimentos voltados ao corpo ciliar eram mais reservados a casos com visão muito comprometida, devido ao risco de complicações. Com o micropulso, porém, o estudo observou baixo índice de eventos adversos, com estabilidade da visão na maioria dos pacientes e raridade de complicações graves.

Com isso, a MP-TSCPC passa a ser considerada não apenas em glaucomas avançados ou refratários, mas também como uma alternativa intermediária entre o tratamento apenas com medicamentos e cirurgias mais invasivas, desde que bem indicada.

De acordo com a oftalmologista, o avanço representa mais uma ferramenta para preservar a visão e ampliar as possibilidades de manejo da doença, especialmente diante de um problema que ainda é subdiagnosticado e pode evoluir sem sinais evidentes.