Saúde bucal ainda é desafio para famílias de pessoas com autismo, alertam dentistas
Questões sensoriais, dificuldades de comunicação e falta de profissionais preparados levam ao adiamento de consultas, o que pode agravar cáries e inflamações e aumentar a necessidade de sedação ou atendimento hospitalar.
Por Redação Brazil Health , 09/07/2026
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Com 2,4 milhões de brasileiros com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) – o equivalente a 1,2% da população –, a saúde bucal aparece como um dos cuidados mais difíceis de manter em parte dessa população. Os dados foram divulgados pelo IBGE em 2025, com base no Censo Demográfico de 2022, e apontam maior prevalência entre homens e concentração de diagnósticos na faixa de 5 a 9 anos.
Na prática, famílias relatam que o problema vai além da escovação: a ida ao dentista pode ser adiada por anos por medo, estresse e falta de serviços adaptados. Segundo a cirurgiã-dentista Cristiane Vasconcellos, mestre em Clínica Odontológica Integrada e especializada no atendimento de pacientes com necessidades específicas, a rotina pode ser impactada por características sensoriais comuns no TEA.
“Em muitos casos, a dificuldade começa com a rejeição ao toque, à textura da escova, ao sabor do creme dental ou até ao simples ato de abrir a boca”, afirma.
Quando a higiene vira uma experiência desagradável
A hipersensibilidade a sons, cheiros, luzes e sensações táteis pode tornar a escovação e o uso do fio dental atividades estressantes. A especialista explica que experiências negativas anteriores também pesam, criando um ciclo de ansiedade e adiamento do cuidado.
“Muitas famílias chegam ao consultório após anos evitando atendimento porque a criança ou o adulto passou por uma experiência traumática. Isso cria um ciclo difícil de romper”, diz Vasconcellos.
O resultado pode ser o avanço de cáries, gengivites, dor e infecções, com necessidade de procedimentos mais complexos – muitas vezes evitáveis com acompanhamento preventivo.
Sinais de dor nem sempre são claros
Problemas nos dentes e na gengiva podem afetar alimentação, sono e comportamento. Em pessoas com TEA e dificuldades de comunicação verbal, a dor pode aparecer de forma indireta, o que atrasa o diagnóstico.
“Nem sempre a pessoa consegue dizer que está sentindo dor. O que os familiares observam são alterações no sono, na alimentação, crises de irritabilidade ou comportamentos repetitivos mais intensos”, afirma.
Além do impacto clínico, a pressão recai sobre pais e cuidadores, que muitas vezes lidam com tentativas diárias frustradas de higiene e com o receio de novas consultas. O custo também tende a aumentar quando a prevenção falha, já que alguns casos exigem sedação ou atendimento em ambiente hospitalar.
Escassez de profissionais capacitados é barreira
Embora o atendimento odontológico seja um direito garantido no SUS, famílias relatam dificuldade para encontrar profissionais treinados e ambientes preparados para pacientes neurodivergentes. Segundo Vasconcellos, ainda é comum que responsáveis ouçam que o paciente é “difícil” ou que “precisa colaborar”, o que aumenta a insegurança e favorece novos adiamentos.
“O profissional precisa compreender o funcionamento daquele paciente, respeitar seus limites, adaptar a comunicação e construir confiança”, afirma.
Para reduzir traumas, especialistas defendem o acompanhamento desde cedo, com consultas voltadas inicialmente à adaptação ao consultório e à criação de experiências positivas. “Quando o contato acontece de forma gradual e respeitando os limites da criança, aumentam significativamente as chances de termos um adulto mais confortável com os cuidados odontológicos”, diz a dentista.
Com o aumento dos diagnósticos e da procura por atendimento especializado, a avaliação é que o desafio nos próximos anos será ampliar a formação de profissionais e tornar o cuidado odontológico inclusivo mais acessível em diferentes regiões do país.
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