Odontologia

Mordida desalinhada pode afetar postura e aumentar tensão no pescoço, apontam estudos

Pesquisas avaliam se assimetrias no encaixe dos dentes têm relação com ajustes na posição da cabeça e da coluna cervical, tema que aproxima odontologia, fisioterapia e medicina do esporte.

Por Redação Brazil Health , 13/04/2026

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Mordida desalinhada pode afetar postura e aumentar tensão no pescoço, apontam estudos

A forma como os dentes de cima e de baixo se encostam – a chamada oclusão – pode ter efeitos que vão além da mastigação. Estudos recentes investigam se alterações na mordida contribuem para mudanças na posição da cabeça e na tensão dos músculos do pescoço, o que pode ajudar a explicar parte das queixas de desconforto postural em alguns pacientes.

O interesse cresce em um cenário de aumento das dores musculoesqueléticas. A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), do IBGE, mostra que milhões de brasileiros convivem com dor crônica na coluna, quadro frequentemente associado ao sedentarismo, ao tempo prolongado em frente a telas e a desvios posturais.

Nesse contexto, pesquisadores passaram a observar um fator pouco discutido fora do meio técnico: quando a mordida apresenta assimetrias – seja por desalinhamento dos dentes, hábito de mastigar mais de um lado ou histórico de procedimentos odontológicos – pode haver impacto no funcionamento muscular da mandíbula, com possíveis repercussões no equilíbrio da cabeça e na região cervical.

O que a ciência está investigando

Trabalhos publicados em áreas como reabilitação oral e biomecânica analisam a possível relação entre disfunções da articulação temporomandibular (ATM) e alterações na postura craniocervical, que envolve a posição do crânio e do pescoço. A hipótese considera conexões neuromusculares entre mandíbula, crânio e coluna cervical, capazes de gerar ajustes compensatórios ao longo do corpo.

Na prática, essas adaptações podem surgir aos poucos. Pequenos desequilíbrios na ativação dos músculos da mandíbula podem levar o organismo a reposicionar, ainda que de forma sutil, a cabeça e o pescoço – regiões importantes para o controle do equilíbrio postural.

O que chega ao consultório

O cirurgião-dentista André Girotto, que atua com avaliação funcional da oclusão e da ATM, afirma que pacientes com dor e desconfortos persistentes nem sempre passam por uma análise da mordida durante a investigação. “Quando a mordida distribui força de forma desigual, a musculatura responde tentando equilibrar o sistema. Com o tempo, essa adaptação pode gerar tensão na região cervical, que tende a se propagar pelas cadeias musculares”, diz.

Ele chama atenção para a relação entre função oral e organização do movimento. “Grande parte da nossa motricidade foi estruturada para conduzir a boca em direção aos alimentos. Não por acaso, os principais órgãos de percepção do ambiente estão organizados ao redor dela”, afirma.

Tratamento e cuidados

Entre os recursos avaliados em consultório estão dispositivos intraorais personalizados, semelhantes às placas usadas em casos de disfunção da ATM. A proposta, segundo a abordagem descrita no release, não é aumentar força ou “melhorar desempenho”, mas buscar uma ativação muscular mais simétrica e reduzir sobrecargas que, em alguns pacientes, podem estar associadas a dor ou desconforto postural.

Especialistas ressaltam que a relação entre mordida e postura ainda está em investigação e não explica todos os casos de dor no pescoço ou nas costas. Ainda assim, o tema tende a ganhar espaço à medida que crescem as queixas musculoesqueléticas e a busca por avaliações integradas entre odontologia e outras áreas da saúde.