Obesidade

Gordofobia nas redes: estudo aponta culpa, vergonha e depressão ligadas à obesidade

Levantamento em Instagram, Twitter e TikTok mostra aumento de discursos depreciativos e dietas sem orientação, alertam especialistas.

Por Redação Brazil Health , 15/12/2025

3 min de leitura

Gordofobia nas redes: estudo aponta culpa, vergonha e depressão ligadas à obesidade

Uma análise da consultoria Ilumeo, encomendada pela farmacêutica Merck, indica que a imagem de pessoas com obesidade nas redes brasileiras é majoritariamente negativa. Em três meses de 2024, 54% das menções foram pejorativas; 27% neutras e 19% positivas.

Entre os sentimentos mais citados apareceram depressão (20%), ansiedade (16%), vergonha e culpa (10%). Quase metade das mensagens negativas tratava de baixa autoestima e rejeição ao próprio corpo.

Os dados apontam a volta do body shaming e a perda de fôlego da aceitação corporal. “Estamos revivendo a lógica da magreza a qualquer custo”, diz Otávio Freire, professor da USP e fundador da Ilumeo. “Antes e depois virou vitrine.”

Rede social e autoimagem

Termos pejorativos seguem colados à palavra gordo: nojo, preguiça e falta de vontade. A visão de que bastaria força de vontade para emagrecer ignora a complexidade do problema.

“A obesidade é uma doença crônica e multifatorial, com componentes genéticos, biológicos, ambientais e sociais”, explica o endocrinologista Cristiano Barcellos, da SBEM. “Tratar sozinho não é caminho.”

Medicamentos sob ataque

O estigma também mira quem faz tratamento. Segundo o levantamento, 56% das menções a remédios para obesidade e a seus usuários foram negativas, muitas insinuando “trapaça” no processo.

“Ninguém se autodiagnostica com diabetes, câncer ou hipertensão e trata sozinho; com a obesidade, ainda vemos isso e até vergonha de buscar ajuda”, afirma Barcellos. “O manejo adequado exige acompanhamento e plano de longo prazo.”

Quando o feed dita o cardápio

Tendências como What I Eat in a Day, Mukbang e o áudio viral magras, magras, magras somam milhões de publicações e visualizações, exibindo rotinas alimentares e atalhos de emagrecimento.

“Embora pareçam entretenimento, muitos vídeos normalizam escolhas pobres em nutrientes e métodos sem comprovação, que podem fazer mal”, diz Barcellos. Pesquisas relacionam esse consumo a transtornos alimentares e ao hábito de beliscar o dia todo.

A proximidade aparente com influenciadores amplifica o efeito. “A exposição digital cria uma sensação de intimidade com figuras públicas, favorecendo idealizações estéticas e repetição de comportamentos”, observa Freire.

No consultório, novos cuidados

“Com a influência contínua do ambiente digital, é crucial avaliar o que o paciente consome nas redes e como isso afeta sua saúde mental e suas escolhas”, afirma Maria Augusta Bernardini, diretora médica da Merck.

Para ela, considerar esse histórico ajuda a personalizar recomendações e a torná-las eficazes. “O tratamento da obesidade é multidisciplinar e de longo prazo; o uso de medicamentos deve ser indicado por especialistas e monitorado”, completa.

O recado do estudo é direto: menos rótulos e mais evidência. Combater o preconceito e qualificar a informação pode reduzir danos e apoiar resultados sustentáveis.