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Uso frequente de analgésicos pode piorar enxaqueca e tornar dor crônica, diz estudo

Análise global publicada no The Lancet aponta que a dor de cabeça ligada ao excesso de remédios tem grande peso na incapacidade e pode passar despercebida, principalmente quando o paciente se automedica.

Por Redação Brazil Health , 16/06/2026

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Uso frequente de analgésicos pode piorar enxaqueca e tornar dor crônica, diz estudo

Tomar analgésicos com frequência para “cortar” a crise pode, em vez de ajudar, manter a enxaqueca ativa e aumentar a incapacidade ao longo do tempo. O alerta aparece em dados do Estudo Global da Carga de Doenças (GBD) 2023, publicado pela revista The Lancet, que analisou informações de 1990 a 2023 sobre enxaqueca, cefaleia tensional e a chamada cefaleia associada ao uso excessivo de medicamentos.

Segundo o levantamento, 2,9 bilhões de pessoas viviam com algum tipo de dor de cabeça em 2023, o equivalente a 34,6% da população mundial. Entre as condições analisadas, a enxaqueca foi a que mais pesou na perda de qualidade de vida, medida por um indicador que estima o tempo vivido com incapacidade.

Para o neurologista Tiago de Paula, especialista em cefaleias, o problema começa quando a pessoa entra em um ciclo difícil de perceber. “Muitos pacientes acreditam que estão tratando a enxaqueca quando, na prática, entram em um ciclo de piora da dor. O uso frequente de analgésicos pode sensibilizar ainda mais o sistema nervoso, tornando as crises mais frequentes, mais intensas e mais resistentes ao tratamento”, afirma.

Quando o remédio vira parte do problema

O estudo aponta que a cefaleia relacionada ao uso excessivo de medicamentos responde por uma parcela relevante da incapacidade atribuída às dores de cabeça. Em alguns recortes, ela representou mais da metade dos anos vividos com incapacidade associados à cefaleia tensional. Em pessoas com enxaqueca, também teve impacto expressivo, reforçando que a forma de tratar as crises pode influenciar diretamente a evolução do quadro.

De acordo com o especialista, o acesso fácil a remédios sem prescrição contribui para a automedicação e para o uso repetido. “Analgésicos comuns, quando usados repetidamente, deixam de ser solução e passam a ser parte do problema. O paciente toma o remédio para aliviar a dor, mas esse alívio é temporário e, com o tempo, a dor volta mais cedo, criando dependência e cronificação”, diz.

Mulheres concentram maior impacto

Outro achado do GBD 2023 é a diferença entre os sexos: as taxas de incapacidade ligadas às cefaleias foram mais que o dobro em mulheres. Para De Paula, o dado reforça a necessidade de diagnóstico e manejo direcionados. “Esse dado reforça a necessidade de estratégias específicas de diagnóstico e manejo, especialmente para a enxaqueca, que acomete majoritariamente mulheres, por uma influência hormonal”, afirma.

Prevenção e acompanhamento especializado

Os autores do estudo destacam que reduzir o uso excessivo de medicamentos pode diminuir parte importante do impacto global das cefaleias, com educação em saúde e orientação adequada. Para o neurologista, a chave é sair do foco exclusivo no alívio imediato e apostar em prevenção. “Tratar enxaqueca não é apenas cortar a dor do dia. Envolve investir em tratamento preventivo”, diz.

Ele afirma que o tratamento pode envolver diferentes estratégias, como toxina botulínica, medicamentos usados na prevenção (incluindo alguns anticonvulsivantes e betabloqueadores) e terapias mais recentes, como anticorpos monoclonais anti-CGRP, indicadas em casos selecionados. “Mas é sempre importante que um neurologista avalie a condição e conduza o tratamento de maneira adequada”, conclui.