Pesquisa estima 27 milhões de brasileiros com enxaqueca sem diagnóstico médico
Levantamento nacional aponta subdiagnóstico, automedicação e impacto na produtividade; Nordeste e pessoas de menor renda aparecem entre os mais afetados.
Por Redação Brazil Health , 14/05/2026
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Um levantamento nacional estima que cerca de 27 milhões de brasileiros podem conviver com enxaqueca sem diagnóstico médico, o que reduz o acesso a acompanhamento e tratamento adequados. O estudo também aponta 23 milhões de pessoas já diagnosticadas no país, indicando que, para cada caso reconhecido, há mais 1,2 pessoa com sintomas compatíveis sem confirmação clínica.
Os dados são do Radar da Enxaqueca no Brasil, pesquisa realizada com apoio da Associação Brasileira de Cefaleia em Salvas e Enxaqueca (Abraces). Além de estimar a subnotificação, o trabalho investigou intensidade das crises e repercussões no cotidiano.
Entre os entrevistados, a dor foi descrita como intensa: numa escala de zero a dez, a média ficou em 5,9, com crises que duram cerca de 15 horas. Segundo o levantamento, 35% dos diagnosticados disseram sentir “a pior dor que podem imaginar”; entre os que têm sintomas, mas não diagnóstico, o índice foi de 26%.
Mulheres concentram casos, mas homens aparecem mais entre os subdiagnosticados
As mulheres representam 75% das pessoas com diagnóstico de enxaqueca, proporção quase três vezes maior que a de homens. No grupo que relata sintomas sem diagnóstico, elas também são maioria (63%), mas a participação masculina cresce de 25% para 37%, o que pode indicar menor reconhecimento da doença entre homens.
“A enxaqueca afeta desproporcionalmente as mulheres, em grande parte devido às variações hormonais ao longo da vida fértil”, afirma o neurologista Mario Peres, presidente da Abraces. Ele acrescenta que estresse, sobrecarga mental e pouco descanso podem contribuir para aumentar os episódios.
O levantamento indica ainda que, entre os que têm sintomas sem diagnóstico, 56% têm até 39 anos, sugerindo maior presença do problema em faixas etárias economicamente ativas.
Renda e região influenciam acesso ao diagnóstico
Segundo a pesquisa, mais de 80% dos não diagnosticados pertencem às classes C, D e E. Entre eles, 35% têm renda de até um salário-mínimo e 29% de até dois salários-mínimos. Quando analisados sexo, renda e raça/cor, a incapacitação aparece maior entre homens, pessoas mais velhas, quem vive com até dois salários-mínimos e pessoas negras.
Na divisão por regiões, o Nordeste registrou a maior taxa de falta de diagnóstico (35%), acima da média nacional entre pessoas sem confirmação clínica (26%). “Esse dado pode revelar, por exemplo, problemas associados à falta de estrutura e o acesso limitado aos serviços de saúde ou até mesmo médicos especialistas”, diz Otávio Franco, da Abraces.
Crises afetam trabalho e aumentam automedicação
O estudo também mediu impactos na vida pessoal e profissional. Entre os entrevistados com diagnóstico, mais de 60% relataram queda frequente de produtividade no trabalho ou nos estudos e medo de represálias. A pesquisa aponta ainda que 36% dizem que “frequentemente” ou “sempre” seguem trabalhando mesmo com dor por receio de consequências no emprego.
Apesar do impacto, 70% dos participantes com enxaqueca afirmaram não fazer acompanhamento médico. Entre os que não acompanham, 35% procuram o serviço público apenas durante a crise, e 64% relataram usar medicamentos sem receita, um indicativo de automedicação.
Para Peres, ampliar informação sobre sintomas e estimular a busca por diagnóstico é decisivo para reduzir sofrimento e evitar piora das crises. “O estudo evidencia a importância de ampliar a disseminação de informações sobre os sintomas da enxaqueca, especialmente entre homens, jovens e pessoas de menor renda”, afirma.
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