Cirurgia do Aparelho Digestivo

Alzheimer pode começar com mudanças de humor e comportamento, e não só com perda de memória

Apatia, impulsividade, irritabilidade e até delírios podem surgir anos antes da demência. O neurologista Fabricio Ferreira de Oliveira explica por que esses sinais não devem ser tratados como “normais da idade”.

Por Redação Brazil Health , 13/07/2026

5 min de leitura

Alzheimer pode começar com mudanças de humor e comportamento, e não só com perda de memória

A doença de Alzheimer é frequentemente associada a falhas de memória e dificuldades de linguagem, mas esse retrato é incompleto. Mudanças persistentes de comportamento e de humor podem aparecer antes mesmo do declínio funcional típico da demência — e, em alguns casos, podem ser os primeiros sinais de que algo não vai bem.

O neurologista Fabricio Ferreira de Oliveira destaca que alterações comportamentais em pessoas mais velhas merecem atenção clínica, especialmente quando representam uma quebra clara do padrão habitual do indivíduo. “Mudança comportamental não deve ser encarada como parte normal do envelhecimento”, afirma o especialista.

Nas últimas décadas, pesquisadores passaram a olhar com mais cuidado para sintomas neuropsiquiátricos que antecedem o diagnóstico de demência. Esse movimento ajudou a consolidar conceitos como o comprometimento cognitivo leve (um estágio intermediário em que há queixas e alterações cognitivas, mas sem perda importante de autonomia) e, mais recentemente, o comprometimento comportamental leve, quando a mudança principal está no comportamento.

Nesse cenário, a atenção se volta para sinais como apatia, ansiedade, irritabilidade, desinibição e comportamento obsessivo, que podem afetar a convivência social e o desempenho nas atividades do dia a dia, mesmo sem um quadro demencial estabelecido.

O que é o comprometimento comportamental leve

O comprometimento comportamental leve é descrito como uma mudança persistente de comportamento ou personalidade que surge depois dos 50 anos e se mantém por meses, interferindo na sociabilidade, no trabalho ou em outros aspectos da vida, sem ser explicada por outras causas.

Segundo Oliveira, esse quadro pode ocorrer junto com o comprometimento cognitivo leve, mas não preenche critérios para demência. “O ponto central é que ainda não há o declínio funcional característico da demência, mas já existe uma alteração comportamental sustentada e relevante”, explica.

Alguns sintomas não entram formalmente em certas classificações, mas aparecem com frequência no mesmo contexto. Distúrbios do sono, por exemplo, podem acompanhar alterações de humor e têm sido associados a mecanismos biológicos ligados ao acúmulo de proteínas envolvidas em doenças neurodegenerativas.

Sintomas que podem indicar maior risco

Embora nem toda mudança de comportamento signifique que uma pessoa desenvolverá demência, estudos apontam que certos perfis podem estar ligados a maior risco de declínio cognitivo. Entre eles, impulsividade, agitação, apatia, alucinações, comportamento obsessivo e problemas de sono aparecem com destaque em pesquisas.

O especialista chama atenção para sintomas psicóticos — como delírios e alucinações — que tendem a ser menos frequentes nesse estágio inicial, mas podem carregar um peso clínico importante. “Esses sintomas podem ter grande impacto na autonomia e na identidade do paciente”, alerta Oliveira.

Outro ponto relevante é que sintomas comportamentais são comuns mesmo em pessoas com comprometimento cognitivo leve. Uma parcela significativa apresenta ao menos um sintoma neuropsiquiátrico mais intenso, o que pode piorar qualidade de vida e aumentar a sobrecarga de familiares e cuidadores.

Tratamento exige cautela e avaliação individual

Quando esses sintomas surgem, a decisão sobre tratamento precisa considerar riscos e benefícios. Oliveira observa que antipsicóticos podem ajudar em quadros como agitação, alucinações e delírios, mas há evidências de efeitos adversos relevantes em determinados pacientes, incluindo risco de eventos tromboembólicos e possível aceleração do declínio cognitivo e funcional.

Antidepressivos, por sua vez, podem ser alternativas mais seguras em muitos casos de sintomas de humor, embora geralmente tenham menor efeito sobre sintomas psicóticos. O médico reforça que medicamentos com efeito anticolinérgico devem ser evitados, por poderem piorar cognição e funcionamento global.

Quanto a estratégias não farmacológicas, como psicoterapia, o especialista ressalta que ainda faltam evidências científicas robustas que comprovem benefício específico nesses quadros iniciais, embora abordagens de cuidado e suporte possam ser importantes no manejo do paciente e da família.

Principais sinais comportamentais a observar

De forma geral, as mudanças que levantam maior atenção são as que surgem após os 50 anos, persistem por pelo menos seis meses (mesmo que intermitentes) e representam uma alteração clara do padrão anterior da pessoa, sem explicação por uso de substâncias, efeitos de medicamentos, traumas ou transtornos psiquiátricos já estabelecidos.

  • Motivação reduzida: apatia, indiferença, perda de espontaneidade
  • Descontrole afetivo: ansiedade, disforia, euforia, irritabilidade
  • Impulsividade: agitação, desinibição, obsessão, compulsividade
  • Comportamentos socialmente inadequados: rigidez, antipatia
  • Alterações de percepção ou pensamento: delírios, alucinações

Essas mudanças, quando persistentes e com impacto real no cotidiano, podem sinalizar um estágio de risco aumentado e merecem avaliação médica. Para Oliveira, a mensagem principal é não minimizar o que parece “apenas” mudança de humor em idosos. “Identificar cedo essas alterações amplia a chance de investigação adequada e de planejamento de cuidado”, afirma.