Janeiro Branco

Crianças com celular antes dos 12 anos têm mais risco de depressão e sono ruim

Estudo com mais de 10 mil jovens liga uso precoce de smartphones a depressão, obesidade e noites mal dormidas; especialistas sugerem limites e supervisão

Por Redação Brazil Health , 07/01/2026

3 min de leitura

Crianças com celular antes dos 12 anos têm mais risco de depressão e sono ruim

Dar um smartphone para crianças antes dos 12 anos pode aumentar a chance de problemas emocionais e físicos. Pesquisa publicada na revista científica Pediatrics encontrou maior risco de depressão, obesidade e alterações de sono entre jovens que receberam o aparelho mais cedo.

Ao chegar aos 12 anos, quem já tinha celular apresentou 31% mais risco de depressão, 40% mais chance de obesidade e 62% mais probabilidade de dormir menos de nove horas por noite, tempo abaixo do recomendado para a idade. As associações se mantiveram mesmo após ajuste por renda, puberdade, uso de outros dispositivos e supervisão dos pais.

Os achados vêm da análise de mais de 10 mil participantes do Adolescent Brain Cognitive Development Study (ABCD), uma das maiores pesquisas sobre desenvolvimento cerebral e comportamento juvenil nos Estados Unidos.

A psicóloga Sabrina Magalhães Teixeira, da Afya Sete Lagoas, alerta para a crença de que crianças “nascidas na era digital” devem usar telas sem restrição. “Brincadeiras presenciais e esportes são fundamentais para aprender a lidar com frustrações, seguir regras, controlar impulsos e compreender o outro”, afirma.

Segundo ela, o ambiente online oferece recompensas imediatas, o que pode atrapalhar o autocontrole e afetar o sono. “Há ainda o risco de interações prejudiciais, como o cyberbullying, em uma fase em que a criança não tem recursos emocionais suficientes para lidar com ataques e exclusões”, diz.

No Brasil, a preocupação é ampliada pelo alto acesso à internet entre crianças e adolescentes, com o smartphone cada vez mais presente na rotina familiar, segundo o estudo TIC Kids Online Brasil.

O que o estudo encontrou

Os pesquisadores sugerem que fatores como menor tempo de atividade física, sono encurtado, exposição noturna à luz das telas e consumo de conteúdos inadequados ajudam a explicar a associação entre uso precoce do celular e piores indicadores de saúde mental e metabólica.

Embora o estudo seja observacional e não prove causa e efeito, a consistência dos dados e o grande número de participantes reforçam a recomendação de adiar o primeiro smartphone e definir regras claras de uso.

Sinais de alerta para os pais

O psiquiatra Cláudio Costa, da Afya Educação Médica, lembra que a infância é uma fase crítica de formação das conexões cerebrais. “Tudo que um bebê e uma criança vivenciam constrói sinapses e redes neuronais. Esse processo é conhecido como neuroplasticidade”, explica.

Entre os indícios de que o uso de telas pode estar trazendo prejuízos, ele cita:

  • mudanças bruscas de humor e irritabilidade ao interromper o aparelho
  • isolamento social e perda de interesse por atividades antes prazerosas
  • queda no rendimento escolar e dificuldade de atenção
  • sono insuficiente ou de má qualidade e alterações no apetite
  • comportamentos agressivos ou desafiadores

“Nos atendimentos clínicos, é cada vez mais comum observar crianças e adolescentes cujo uso de telas saiu completamente do controle”, relata Costa. Para especialistas, estratégias como adiar a entrega do primeiro celular, limitar tempo e horários de uso, manter o aparelho fora do quarto à noite e acompanhar conteúdos acessados ajudam a proteger o desenvolvimento infantil.