Hepatologista

Anvisa pede alerta em suplementos de cúrcuma após relatos raros de lesão no fígado

Agência determinou atualização de bulas e advertências para produtos com extratos concentrados; especialista explica por que cápsulas e fórmulas de alta dose exigem cautela e quais sinais podem indicar problema.

Por Redação Brazil Health , 15/03/2026

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Anvisa pede alerta em suplementos de cúrcuma após relatos raros de lesão no fígado

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou a atualização de bulas e advertências de produtos com cúrcuma (açafrão-da-terra) em formulações concentradas, como extratos e cápsulas. A medida ocorre após investigações internacionais apontarem casos raros, porém graves, de lesão hepática associados ao uso desses itens, incluindo inflamação do fígado e hepatite medicamentosa.

Os registros têm sido monitorados por sistemas de farmacovigilância em diferentes países. “Nos últimos anos começaram a surgir relatos de lesão hepática associada ao uso de suplementos que contêm cúrcuma ou curcumina em diversos países. Em alguns pacientes foi identificado um quadro de hepatite medicamentosa, com aumento importante das enzimas do fígado e icterícia, que melhoraram após a suspensão do produto”, afirma a hepatologista Patrícia Almeida, da Sociedade Brasileira de Hepatologia, doutora pela USP.

Segundo a especialista, a preocupação não é com o tempero usado no dia a dia, mas com o consumo em doses elevadas, comum em suplementos. “A curcumina tem efeitos imunomoduladores relevantes. Em algumas pessoas isso pode interferir na regulação do sistema imune e desencadear uma resposta inflamatória no fígado”, diz.

Tempero na comida não é o foco do alerta

A hepatologista ressalta que, na culinária, a quantidade ingerida costuma ser pequena e a absorção é limitada, o que reduz o risco. Já em suplementos, as doses são mais altas e muitas vezes formuladas para aumentar a absorção, elevando a exposição do organismo.

Um dos fatores citados é a presença de substâncias que potencializam a absorção, como a piperina, encontrada na pimenta-preta. Além disso, a médica chama atenção para variações de qualidade em parte do mercado de suplementos. “Além disso, o mercado de suplementos nem sempre tem o mesmo nível de padronização e controle de qualidade que existe para medicamentos. Já foram descritos casos em que análises laboratoriais encontraram contaminações ou compostos não declarados nos rótulos”, afirma.

Quem deve ter mais cuidado

Embora os eventos sejam incomuns, o risco pode ser maior em alguns grupos, como pessoas com doença hepática prévia, quem usa vários medicamentos metabolizados pelo fígado e indivíduos com histórico de lesão hepática causada por remédios ou suplementos. “De modo geral, não é recomendável utilizar suplementos de cúrcuma de forma indiscriminada como estratégia de prevenção de doenças ou promoção de saúde. Esse tipo de produto deve sempre ser avaliado individualmente”, orienta Almeida.

Sinais de alerta e o que fazer

A especialista recomenda atenção a sintomas que podem sugerir sofrimento do fígado. “Cansaço intenso, náuseas persistentes, perda de apetite, dor abdominal, urina escura e amarelamento da pele ou dos olhos são sinais que podem indicar sofrimento do fígado. Nesses casos, o ideal é suspender o suplemento e procurar avaliação médica”, afirma.

Ela também destaca que o uso de suplementos nem sempre é relatado em consultas, o que pode dificultar o diagnóstico. “Muitas vezes o paciente não considera suplemento como medicamento e acaba não relatando o uso. Por isso, sempre que investigamos alterações nas enzimas do fígado é fundamental perguntar ativamente sobre esses produtos”, conclui.