Psiquiatria

Câncer do colo do útero: por que a prevenção ainda falha no Brasil

Mesmo com vacina contra HPV e exame preventivo disponíveis, país registra milhares de mortes e enfrenta obstáculos como desinformação, medo e desigualdade no acesso ao rastreamento.

Por Redação Brazil Health , 08/03/2026

3 min de leitura

Câncer do colo do útero: por que a prevenção ainda falha no Brasil

O câncer do colo do útero, associado principalmente à infecção persistente pelo HPV, segue como um desafio de saúde pública no Brasil apesar de ser amplamente prevenível. Estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA) projeta 19.310 novos casos por ano no país no triênio 2026–2028, mantendo a doença entre as mais frequentes na população feminina.

Além do impacto em novos diagnósticos, a mortalidade permanece elevada. Em 2023, foram registrados 7.209 óbitos por esse tipo de tumor, segundo o INCA. A campanha Março Lilás, voltada à conscientização, chama atenção para a importância de vacinar contra o HPV e manter o rastreamento em dia para evitar que lesões iniciais evoluam para câncer.

Desigualdade e barreiras culturais afastam mulheres do exame

Embora o Papanicolau seja oferecido na rede de saúde, a realização do exame não ocorre de forma homogênea. Dados do INCA apontam que mulheres de baixa renda e com menor escolaridade concentram a maior parcela entre aquelas que nunca fizeram o preventivo. O órgão também descreve diferenças por raça e cor, com aumento de mortes entre mulheres negras, pardas e indígenas ao longo dos últimos anos.

A pandemia de Covid-19 agravou o cenário: em 2020 e 2021 houve redução importante na coleta de exames citopatológicos, reflexo tanto das restrições sanitárias quanto do receio de buscar atendimento. A preocupação de especialistas é que o atraso no rastreamento resulte em mais diagnósticos em estágios avançados nos próximos anos.

Para a patologista Livia Maia, do Laboratório Exame, parte do problema não se resume à oferta do serviço. “Muitas mulheres adiam o exame por medo do resultado, vergonha da hora do exame ou experiências negativas anteriores. Como a doença não apresenta sintomas no início, há uma falsa sensação de segurança”, afirma.

Vacina e rastreamento: combinação que reduz risco

A vacinação contra o HPV é considerada a principal estratégia de prevenção primária, pois reduz a circulação dos tipos do vírus mais associados ao câncer do colo do útero. Ainda assim, a proteção é maior quando a imunização é acompanhada de rastreamento periódico, capaz de identificar alterações antes do surgimento do tumor.

“Quando associamos vacina e rastreamento periódico, conseguimos reduzir drasticamente o risco de evolução para câncer invasivo. O grande desafio é transformar informação em adesão”, diz Maia. Segundo ela, mitos sobre o exame seguem atrapalhando a procura. “Existe o mito de que só precisa fazer o exame após ter filhos ou quando há sintomas. O preventivo é justamente para identificar alterações antes que o câncer se desenvolva.”

Teste de HPV pode ampliar diagnóstico precoce

Entre as mudanças recentes discutidas para fortalecer o rastreamento está a incorporação do teste molecular de DNA do HPV, método mais sensível do que o Papanicolau por identificar diretamente o material genético do vírus. Quando o resultado é negativo, o intervalo entre exames pode ser maior, chegando a cinco anos, conforme recomendações técnicas.

Para a especialista, porém, tecnologia não substitui acolhimento e educação em saúde. “O Março Lilás é um momento estratégico para reforçar que o câncer de colo do útero é amplamente prevenível. Informação clara, vacinação e exame regular salvam vidas”, conclui.