Ortopedia e Traumatologia

Inteligência artificial apoia médicos, mas não substitui avaliação geriátrica

Por Redação Brazil Health , 12/06/2026

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Inteligência artificial apoia médicos, mas não substitui avaliação geriátrica

Ferramentas auxiliam na análise de exames e prevenção de riscos, mas resolução do CFM reforça que decisões e comunicação com o paciente seguem sendo responsabilidade do médico.

A inteligência artificial (IA) vem ganhando espaço na saúde no Brasil e no mundo, apoiando tarefas como interpretação de exames de imagem, cálculo de risco cardiovascular, previsão de piora clínica e organização de fluxos de atendimento em grandes redes. No país, o tema entrou oficialmente no radar da regulamentação médica com a publicação da primeira resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) voltada ao uso de IA na prática clínica.

Resolução CFM nº 2.454/2026 A norma assegura ao médico o direito de utilizar ferramentas de IA como apoio à decisão clínica, à gestão em saúde, à pesquisa científica e à educação médica continuada, desde que respeitados os limites éticos e legais da profissão. A palavra final sobre as decisões diagnósticas, terapêuticas e prognóstica sempre será do médico, que também pode se recusar a usar a tecnologias não validadas cientificamente, que não tenha certificação regulatória pertinente ou que contrariem princípios éticos, técnicos ou legais da medicina.

Para a geriatra Julianne Pessequillo, o avanço tecnológico pode contribuir para tornar o cuidado mais eficiente, mas encontra limites claros quando o assunto é envelhecimento e atenção ao idoso. “Na geriatria, o cuidado transcende protocolos e exige sensibilidade, experiência e vínculo com o paciente”, afirma a médica.

Pelas diretrizes do CFM, a IA deve atuar como ferramenta de apoio à decisão clínica, e não como substituta do julgamento profissional. A norma também reforça que a responsabilidade por diagnóstico, prognóstico e conduta terapêutica permanece com o médico e veda que sistemas informatizados comuniquem diretamente ao paciente diagnósticos ou decisões de tratamento sem mediação humana.

Por que o idoso desafia a lógica dos algoritmos

A geriatria costuma lidar com um cenário mais complexo do que a presença de uma doença isolada. É comum que o paciente idoso apresente multimorbidades, use vários medicamentos ao mesmo tempo e conviva com síndromes geriátricas, fragilidades físicas, alterações cognitivas e questões psicossociais que interferem no cuidado.

Em vez de focar em um único órgão ou sistema, a avaliação geriátrica busca uma visão global: funcionalidade, autonomia, suporte familiar, cognição, humor, risco social, expectativa de vida e valores pessoais entram no cálculo, muitas vezes, tanto quanto exames e números.

Estudos internacionais indicam que algoritmos podem alcançar desempenho semelhante ao de especialistas em tarefas muito específicas, como detectar retinopatia diabética ou identificar nódulos pulmonares em tomografias. Ainda assim, esse resultado costuma depender de contextos controlados e bem delimitados.

Um dos pontos de alerta, segundo a médica, é que bancos de dados usados para treinar sistemas de IA nem sempre representam adequadamente idosos muito longevos, frágeis ou institucionalizados, justamente os que concentram maior complexidade clínica. Isso levanta dúvidas sobre vieses e sobre o quanto os resultados se aplicam ao “mundo real”.

Na avaliação do cuidado ao idoso, há fatores que resistem à automatização. “A IA é eficaz na identificação de padrões; já o cuidado clínico é feito de exceções”, destaca Julianne.

Um sistema pode estimar risco de quedas com base em variáveis objetivas, mas tende a ter dificuldade para incorporar nuances do cotidiano: o impacto emocional de um luto recente, a recusa silenciosa a um tratamento que prolonga a vida às custas de sofrimento, ou a hesitação diante de uma internação.

Consulta geriátrica também é comunicação e vínculo

Outro ponto central é que, na geriatria, a consulta frequentemente envolve mais do que escolher um remédio ou pedir um exame. A conversa pode incluir escuta qualificada, construção de confiança e manejo de expectativas de pacientes e familiares, além de mediação de conflitos.

Há situações em que a comunicação é parte essencial do tratamento, como ao explicar um diagnóstico de demência, lidar com uma perda funcional irreversível ou discutir doenças avançadas. “A forma como se explica uma condição, como se acolhe a angústia e como se orienta a família pode modificar desfechos e adesão ao tratamento”, afirma a geriatra.

Isso não significa rejeitar a tecnologia. Na visão da especialista, ferramentas bem aplicadas podem ajudar na revisão de interações medicamentosas, na organização de prontuários extensos e na predição de risco de internação, tarefas que poupam tempo e apoiam decisões, especialmente diante do envelhecimento populacional. “Ferramentas que otimizem tempo e ampliem a capacidade assistencial serão cada vez mais necessárias”, diz.

O ponto de consenso, reforçado tanto pela prática clínica quanto pelas novas diretrizes, é que a IA pode aprimorar processos, mas não substitui a relação médico-paciente. “Enquanto o envelhecimento for um fenômeno humano, a relação médico-paciente continuará sendo insubstituível”, conclui Julianne