Apneia do sono atinge milhões e pode elevar risco de hipertensão e AVC
Condição é comum e muitas vezes passa despercebida; especialista explica sinais, fatores de risco e por que o tratamento precisa de acompanhamento.
Por Redação Brazil Health , 19/07/2026
4 min de leitura
A apneia obstrutiva do sono, distúrbio que provoca pausas repetidas na respiração durante a noite, é hoje uma das condições mais frequentes e menos diagnosticadas no mundo. Estimativas apontam que cerca de 936 milhões de adultos entre 30 e 69 anos convivem com o problema, e 425 milhões teriam quadros de moderados a graves, que demandam tratamento.
No Brasil, números do estudo EPISONO (2026) chamam atenção para a alta ocorrência em São Paulo: mais de um terço da população avaliada (37,12%) apresentava apneia do sono, proporção que chegou a 45% entre os homens.
Adriana Fanelli, fisioterapeuta respiratória com atuação em distúrbios do sono, explica que a apneia obstrutiva acontece quando as vias aéreas superiores “fecham” de forma repetida durante o sono. “Essas interrupções reduzem o oxigênio no sangue e fragmentam o sono, além de ativarem excessivamente o sistema nervoso, o que pode trazer consequências para todo o organismo”, afirma.
Na prática, o corpo reage a cada pausa respiratória com microdespertares — muitas vezes imperceptíveis para quem dorme — e isso impede um descanso reparador. Com o tempo, o quadro pode se traduzir em cansaço persistente, dificuldades de concentração e queda de produtividade.
Obesidade é o principal fator de risco modificável
Entre os fatores associados à apneia, a obesidade aparece como o mais importante e, ao mesmo tempo, o mais passível de mudança. Ela está presente em 60% a 70% dos pacientes com o distúrbio, segundo os dados reunidos no conteúdo analisado.
O excesso de gordura na região do pescoço, língua e garganta tende a estreitar a passagem do ar. Já o acúmulo abdominal pode dificultar a expansão completa do tórax e dos pulmões. Estudos indicam que um aumento de 10% no peso corporal está ligado a uma elevação de 32% no índice de apneia-hipopneia, e que mais de 40% das pessoas com índice de massa corporal acima de 30 apresentam apneia obstrutiva do sono.
Outros fatores de risco incluem:
- sexo masculino;
- idade mais avançada;
- alterações craniofaciais;
- circunferência cervical aumentada;
- histórico familiar;
- condições endócrinas como hipotireoidismo e acromegalia.
Nas mulheres, a menopausa é um período de atenção: a prevalência pode ser de 2,6 a 3,5 vezes maior após essa fase, em comparação com o período pré-menopausa.
Impactos podem ir além do sono e chegar ao coração
Quando não tratada, a apneia do sono pode desencadear uma série de alterações no organismo, como quedas repetidas de oxigênio, estresse oxidativo, inflamação sistêmica e disfunção dos vasos sanguíneos, além de desregulação metabólica.
Esses mecanismos ajudam a explicar por que a apneia aparece com frequência elevada em pessoas com hipertensão, insuficiência cardíaca, doença arterial coronariana, hipertensão pulmonar, fibrilação atrial e histórico de acidente vascular cerebral. Também entram na conta impactos sociais e econômicos, como perda de produtividade e aumento do risco de acidentes de trânsito e de trabalho.
Apesar disso, a sonolência diurna nem sempre é encarada como sinal de alerta. “Muita gente normaliza o cansaço e não leva a queixa para a consulta, o que atrasa o diagnóstico”, destaca Fanelli.
Diagnóstico é médico; tratamento exige adesão e suporte
A confirmação do quadro depende de avaliação médica e, em geral, de exame de polissonografia, que mede parâmetros do sono e da respiração durante a noite. A partir daí, é definida a estratégia terapêutica mais adequada.
Nos casos moderados a graves, o tratamento considerado padrão-ouro é o CPAP, aparelho que mantém as vias aéreas abertas por meio de pressão positiva contínua. O desafio é que a adaptação pode ser difícil: aproximadamente metade dos pacientes enfrenta problemas para manter o uso regular.
Fanelli afirma que o acompanhamento especializado pode ser decisivo para superar barreiras comuns, como desconforto, vazamentos na máscara e dificuldade de ajuste. “A personalização da interface, o ajuste fino das pressões, a orientação de uso e a resolução de problemas técnicos fazem diferença direta na adesão”, explica.
Segundo estudos citados no material, intervenções de suporte profissional podem aumentar o uso do CPAP em cerca de uma hora por noite e melhorar de forma significativa a taxa de adesão, frequentemente definida como uso acima de quatro horas por noite.
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