Espectacularização

Crianças Transformam Sofrimento em Conteúdo e Psicóloga Alerta para Riscos das Redes

Cresce o número de jovens que buscam validação ao compartilhar dores e crises emocionais online, preocupando profissionais da saúde mental.

Por Redação Brazil Health , 11/09/2025

3 min de leitura

Crianças Transformam Sofrimento em Conteúdo e Psicóloga Alerta para Riscos das Redes

O fenômeno de crianças e adolescentes que transformam suas emoções em conteúdo para redes sociais tem chamado a atenção de especialistas em saúde mental no Brasil. O comportamento, intensificado pela popularização de influenciadores que publicam abertamente crises e fragilidades, está sendo chamado por profissionais de “espectacularização do sofrimento”.

Roberta Passos, psicóloga clínica especializada em Neuropsicologia, explica que a exposição constante ao sofrimento de figuras públicas pode ensinar às crianças que expressar tristeza ou frustração diante de uma audiência é uma forma legítima de receber atenção. “Quando a criança vê repetidamente episódios de figuras públicas chorando ou expondo dores profundas em vídeos, ela internaliza a ideia de que demonstrar sofrimento publicamente é uma maneira legítima — e até esperada — de receber atenção e afeto”, esclarece.

Segundo a profissional, o problema está na inversão da lógica do acolhimento emocional. “A validação deixa de vir pelo vínculo íntimo e seguro, e passa a depender da reação de uma plateia. Isso prejudica a elaboração real da emoção e pode levar a comportamentos performáticos, em que a criança ou adolescente começa a ‘atuar’ sentimentos para serem vistos”, destaca.

Desempenho das plataformas e o papel dos algoritmos

Estudos recentes apontam que redes sociais como YouTube e X (antigo Twitter) tendem a impulsionar conteúdos carregados emocionalmente, especialmente os de tom negativo ou dramático. Isso ocorre porque essas publicações engajam mais, mesmo que não representem preferências autênticas do público. Para crianças, a exposição constante a essas dinâmicas reforça a ideia de que sentimentos intensos só são valiosos se forem públicos e atraírem reações virtuais.

Consequências para o desenvolvimento emocional

Entre os riscos destacados por Roberta Passos estão:

  • dificuldade em processar emoções de forma saudável, com a exposição substituindo o acolhimento real;
  • baixa tolerância à frustração, já que a criança passa a esperar respostas rápidas e amplificadas;
  • perda da intimidade emocional, trocando o compartilhamento com pessoas de confiança por uma audiência ampla;
  • reflexos negativos na autoestima, ao medir o próprio valor a partir de métricas digitais.

Para a psicóloga, a solução não está em afastar os jovens do universo digital, mas em prepará-los para um uso mais saudável. “É preciso conversar sobre o que eles veem nas redes, ajudando a diferenciar a expressão emocional genuína de um conteúdo performático; oferecer canais seguros de expressão, como arte, esporte e momentos de diálogo familiar; e supervisionar o tempo e o tipo de consumo digital, priorizando aquilo que estimule empatia e cooperação. Assim, ensinamos que o valor de um sentimento não está na quantidade de curtidas que ele recebe, mas no cuidado real que se constrói em torno dele”, orienta Roberta Passos.

Com mais de 14 anos de experiência, Roberta é especialista em temas ligados ao desenvolvimento infantil, saúde mental na era digital e ao impacto das redes sociais sobre o comportamento de crianças e adolescentes. O alerta, segundo ela, é para um olhar mais atento das famílias sobre as emoções que ganham palco — e audiência — nos celulares.