Dente

Cirurgia que usa dente no olho devolve visão em casos graves; entenda

Técnica rara criada na Itália combina lente com fragmento do próprio dente e reduz risco de rejeição, mas ainda não é realizada no Brasil.

Por Redação Brazil Health , 11/11/2025

3 min de leitura

Cirurgia que usa dente no olho devolve visão em casos graves; entenda

Uma cirurgia apelidada de “dente no olho” tem devolvido a visão a pacientes que perderam a transparência da córnea após queimaduras químicas e outras lesões severas. A técnica, desenvolvida na Itália em 1963 pelo oftalmologista Benedetto Strampelli e padronizada como protocolo em 2005, é aplicada em países da Europa, Estados Unidos, Japão, Austrália e Canadá.

No Brasil, porém, não há relatos de execução nem estudos clínicos publicados. “Também não há informações sobre por quais motivos este procedimento não tem sido realizado entre nós, tampouco o que precisaria para poder viabilizá-lo”, afirma o cirurgião-dentista Carlos Monson, presidente da Comissão Temática de Odontologia Baseada em Evidências do CROSP.

Como funciona a técnica

Conhecida pelo nome técnico OOKP (ósteo-odonto-ceratoprótese), a cirurgia utiliza um pequeno bloco extraído do próprio dente do paciente, geralmente o canino ou um dente do siso. Esse fragmento é esculpido para receber uma micro­lente que, no fim do processo, substitui a córnea opaca e permite a entrada de luz.

Para reduzir infecções e aumentar a integração ao organismo, o dente precisa vir acompanhado de porções de osso e ligamentos periodontais. “É importante que o fragmento tenha porções de osso alveolar e de ligamentos periodontais adjacentes, os quais devem ser obtidos em condições absolutamente esterilizadas, dentro de um protocolo cirúrgico rigoroso”, diz Monson.

Antes de ir ao olho, o conjunto dente/lente é implantado sob a pele em outra área do corpo do próprio paciente por 12 a 18 meses. Esse período permite que o tecido se vascularize e se “incorpore”, funcionando como um transplante autólogo, com redução estimada de até 95% no risco de rejeição imunológica, segundo o especialista.

Quem pode se beneficiar

O OOKP é indicado para um grupo restrito de pessoas com dano corneano extremo, quando transplantes de córnea convencionais não são viáveis. O processo é longo, envolve várias etapas e tem alto custo, o que ajuda a explicar sua raridade mesmo nos países onde existe.

Resultados e desafios

Levantamentos entre 1969 e 2001, com 59 pacientes e 82 implantes, mostraram que 94% dos dispositivos permaneceram estáveis por anos. Muitos voltaram a realizar tarefas do dia a dia sem ajuda — como se vestir, tomar banho e se locomover — e alguns retomaram atividades esportivas. Em parte dos casos, porém, a visão é limitada, com “visão em túnel”, semelhante a olhar por um buraco de fechadura.

A estética também é um ponto sensível: o olho pode ficar rosado ao redor da lente devido à fase de cicatrização. Para contornar o desconforto, há a opção de uma prótese externa que simula a íris e melhora a aparência.

Há pesquisas em andamento com lâminas de titânio para substituir o dente, buscando padronização e maior durabilidade. Apesar dos resultados preliminares, Monson alerta que essa alternativa ainda não consta nos principais repositórios de evidências biomédicas internacionais, o que reforça seu caráter experimental.

Enquanto o Brasil não avança na implantação clínica, a “cirurgia do dente no olho” segue como esperança para casos extremos em centros de referência no exterior — e como tema que exige debate sobre viabilidade, treinamento e regulação no país.