Microbioma intestinal pode influenciar cicatrização e risco de complicações após cirurgia
Estudos apontam que algumas bactérias podem enfraquecer a “costura” do intestino, enquanto uma flora equilibrada tende a favorecer a recuperação. Especialistas avaliam como isso pode mudar o preparo antes de operações digestivas.
Por Redação Brazil Health , 21/07/2026
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Quando dois trechos do intestino precisam ser unidos durante uma cirurgia, o procedimento recebe o nome de anastomose. Nessa etapa, a atenção da equipe costuma se concentrar em fatores como técnica, boa irrigação do tecido e ausência de tensão na sutura. Mas evidências científicas recentes indicam que outro elemento pode influenciar o desfecho: o conjunto de microrganismos que vivem no intestino, conhecido como microbioma.
O cirurgião do aparelho digestivo Alexander Morrell explica que essa relação ganha relevância porque uma das complicações mais graves do pós-operatório é a deiscência de anastomose, quando a união entre os segmentos intestinais se abre. “Além da técnica, existe um fator invisível: determinadas bactérias podem interferir diretamente na cicatrização”, afirma.
Pesquisas têm associado esse risco à presença de microrganismos específicos, como a Enterococcus faecalis e bactérias capazes de produzir colagenase — uma enzima que degrada proteínas importantes para a formação da cicatriz. Na prática, isso significa que, em alguns pacientes, a flora intestinal pode enfraquecer a região operada antes que a cicatrização se consolide.
Como as bactérias participam da cicatrização
O microbioma não é apenas um “morador” passivo do intestino. Em um cenário de equilíbrio, ele tende a favorecer o funcionamento da barreira intestinal, a resposta inflamatória adequada e o estímulo a células envolvidas no reparo dos tecidos.
Quando esse equilíbrio se rompe — por exemplo, após o uso de antibióticos de amplo espectro, por dietas muito restritivas ou pela própria doença que levou à cirurgia —, o ambiente intestinal pode se tornar menos favorável à recuperação. “Um microbioma saudável pode atuar como aliado da cicatrização; já a perda desse equilíbrio pode dificultar o processo”, destaca Morrell.
Experimentos em modelos animais reforçam essa hipótese: animais com microbioma empobrecido apresentaram taxas maiores de deiscência, enquanto aqueles com flora mais diversificada tiveram melhor cicatrização. Embora esses achados não resolvam, sozinhos, o desafio no cuidado de pacientes, eles apontam para um novo componente na avaliação do risco cirúrgico.
O que pode mudar no preparo para cirurgias digestivas
A possibilidade de “preparar” o intestino não apenas do ponto de vista mecânico, mas também microbiológico, já mobiliza linhas de pesquisa. Entre as estratégias em estudo estão:
- Probióticos específicos no período perioperatório (antes e depois da cirurgia);
- Dietas com fibras fermentáveis no pré-operatório, para estimular bactérias benéficas;
- Transplante de microbiota fecal, ainda como hipótese de preparo em contextos selecionados e em investigação.
O especialista ressalta, porém, que os dados ainda não são suficientes para recomendações amplas. “Os resultados são promissores em pesquisas pré-clínicas, mas os ensaios clínicos em humanos ainda são heterogêneos e insuficientes para uma indicação definitiva”, afirma Morrell.
Mesmo assim, a tendência é que o tema ganhe espaço na cirurgia digestiva, especialmente por envolver uma complicação que pode ser grave e, em alguns casos, fatal. A ideia, cada vez mais discutida, é que o sucesso do pós-operatório depende não apenas do que acontece na sala de cirurgia, mas também do ecossistema microscópico presente no intestino de cada paciente.
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