Chupeta Digital

Chupeta digital: psicóloga alerta para risco das telas que hipnotizam crianças

Especialista compara a tela à chupeta e defende mais colo, conversa e brincadeira para proteger o desenvolvimento infantil.

Por Redação Brazil Health , 24/12/2025

3 min de leitura

Chupeta digital: psicóloga alerta para risco das telas que hipnotizam crianças

A presença de telas no dia a dia das crianças começa cada vez mais cedo — e, para muitos pais, vira recurso para acalmar choros e frustrações. A psicóloga Marisa Bruno Dias Perestrelo batiza o fenômeno de “chupeta digital”, quando celulares e tablets ocupam o lugar do colo, da conversa e do brincar. “Assistimos crianças paralisadas diante de uma tela, como se nada mais no seu entorno existisse”, afirma.

Levantamento do Comitê Gestor da Internet no Brasil (TIC Kids Online Brasil 2022) indica que 93% dos jovens de 9 a 17 anos usam internet. A proporção dos que tiveram o primeiro acesso antes dos 6 anos dobrou desde 2015 — cenário que contrasta com recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria, que desaconselha telas para menores de 2 anos.

Para Perestrelo, o problema não é a tecnologia em si, mas como ela é usada. “O problema não está na existência do objeto, mas no uso dele”, diz. Se antes a chupeta era um recurso temporário, substituído por apoio emocional e intervenções dos adultos, a tela tem se tornado “muleta” diária. “Será que agora estamos falando da chupeta digital, o fenômeno cala-boca, onde não são os dentes e a fala os aspectos prejudicados, mas toda a teia de formação do ser humano em desenvolvimento?”, questiona.

Quando a tela vira ‘calmante’

Segundo a psicóloga, o uso de telas para silenciar o choro ou o tédio cria um atalho que impede a criança de aprender a lidar com as próprias emoções. “Uma criança não nasceu com uma tela na mão, ela só aprende a pedir depois de ter sido ofertada a primeira vez”, afirma. O efeito, diz, é hipnótico: “O olhar vidrado, um corpo imóvel, a ausência de resposta e a perda da noção de tempo”.

Ela ressalta que a discussão vai além do dispositivo e envolve a responsabilidade adulta. “Ao substituir o consolo humano, diante de um episódio de choro e estresse, por um digital, os pais abrem espaço para que a infância e todo o desenvolvimento infantil seja atravessado por pixels e não pelo humano.”

Impactos no desenvolvimento

Perestrelo alerta para consequências que vão do cognitivo ao emocional: prejuízos na concentração e no foco, menor capacidade de imaginação e criatividade, dificuldades de interação social e de formação de vínculos, além de problemas de autorregulação. “Observamos impactos nos relacionamentos sociais, na qualidade de vínculos, na interação com o mundo real, na autorregulação e na incapacidade de gerenciar as próprias emoções”, afirma.

O que fazer

A psicóloga destaca que não se trata de culpar famílias nem demonizar a tecnologia. “Os pais também enfrentam a mesma sedução pelas telas”, lembra. Para ela, o caminho passa por recolocar o adulto no centro do cuidado e valorizar experiências fora das telas:

  • Garantir o espaço do brincar
  • Priorizar diálogos em família
  • Investir na presença ativa do adulto na condução das situações

“Não é a criança que deve ficar hipnotizada pela tela, é o adulto que tem que se permitir ficar seduzido pelo desenvolvimento da criança e assisti-lo com responsabilidade”, conclui Perestrelo.