Dermatologia

Remédios de GLP-1 podem proteger o coração além de ajudar a emagrecer

Estudos apontam redução de infarto e AVC em grupos específicos, mas especialistas alertam que o uso exige indicação correta e acompanhamento.

Por Redação Brazil Health , 09/07/2026

4 min de leitura

Remédios de GLP-1 podem proteger o coração além de ajudar a emagrecer

Medicamentos conhecidos por acelerar a perda de peso e melhorar o controle do diabetes tipo 2 também vêm ganhando espaço no cuidado com o coração. Os chamados agonistas de GLP-1, que se popularizaram nos últimos anos, têm mostrado benefícios cardiovasculares em pacientes selecionados, especialmente aqueles com obesidade, diabetes ou doença cardiovascular já estabelecida.

O cardiologista Carlos Alberto Pastore destaca que a mudança mais importante é entender que, em pessoas de maior risco, essas terapias podem ir além da balança. “Em pacientes bem selecionados, observamos redução de eventos graves, como infarto e AVC, quando a medicação é usada com indicação e acompanhamento”, afirma.

Um dos trabalhos que impulsionou esse debate foi o estudo SELECT, publicado no New England Journal of Medicine. A pesquisa mostrou que a semaglutida reduziu em 20% o risco de eventos cardiovasculares maiores em pessoas com sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular prévia, mesmo sem diabetes.

Em 2024, a agência reguladora dos Estados Unidos (FDA) aprovou a semaglutida para reduzir o risco de morte cardiovascular, infarto e AVC em adultos com doença cardiovascular estabelecida e obesidade ou sobrepeso, reforçando a visão de que tratar o excesso de peso pode ser parte da estratégia de proteção do coração.

Por que o efeito vai além do emagrecimento

Embora a perda de peso seja um dos efeitos mais conhecidos desse tipo de medicamento, ela não parece explicar tudo. Há evidências de que os agonistas de GLP-1 atuam em diferentes mecanismos relacionados ao risco cardiovascular, com impacto em fatores como inflamação, pressão arterial, metabolismo da glicose, função dos vasos sanguíneos e composição corporal.

Na prática, isso ajuda a entender por que alguns pacientes apresentam melhora em um conjunto de condições que, somadas, reduzem a sobrecarga sobre o sistema cardiovascular. Pastore ressalta que o resultado é mais amplo do que “apenas” perder quilos: “O benefício cardiovascular não depende só do emagrecimento; envolve múltiplos fatores que influenciam a saúde do coração e dos vasos”, explica.

O que muda para quem já teve infarto ou AVC

Para pacientes que já tiveram infarto, AVC ou convivem com doença arterial estabelecida, a prevenção de novos eventos tradicionalmente inclui controlar pressão arterial, colesterol e glicose, além de mudanças de estilo de vida. Agora, a obesidade vem sendo reconhecida com mais força como um fator de risco cardiovascular ativo, que também precisa ser tratado com seriedade.

Nesse contexto, os agonistas de GLP-1 podem integrar a chamada prevenção secundária — a estratégia para reduzir a chance de um novo evento em quem já tem doença cardiovascular. Isso, no entanto, não substitui tratamentos consagrados, como estatinas, anti-hipertensivos, antiagregantes e hábitos saudáveis, mas pode complementar o cuidado em pessoas com perfil adequado.

A indicação, segundo o especialista, deve levar em conta um conjunto de critérios, como peso, comorbidades, histórico cardiovascular, risco metabólico e tolerância ao tratamento.

Entusiasmo com critério: nem todo mundo deve usar

Apesar dos resultados positivos, médicos alertam que o avanço não pode ser confundido com liberação irrestrita. Esses remédios podem causar efeitos gastrointestinais, exigem monitoramento e não são indicados para todos os pacientes.

Para Pastore, um dos principais riscos atuais é transformar uma ferramenta terapêutica relevante em modismo. “Não deve ser encarado como solução estética ou atalho para emagrecimento rápido, muito menos sem avaliação clínica”, alerta.

No fim, a mensagem é direta: perder peso pode beneficiar o coração, mas as evidências indicam que, quando bem indicados, os agonistas de GLP-1 podem representar também uma estratégia cardiovascular — desde que usados com critério, segurança e acompanhamento médico.