Neurologia

Você acha que quem está em coma não ouve nada? A verdade pode te surpreender

O neurologista Felipe Barros explica por que a voz da família e pequenos gestos podem fazer diferença mesmo quando o paciente parece não reagir.

Por Redação Brazil Health , 11/05/2026

4 min de leitura

Você acha que quem está em coma não ouve nada? A verdade pode te surpreender

Durante minha formação como neurologista, acompanhei, durante alguns meses, uma jovem paciente em coma, internada em uma UTI neurológica de um grande hospital público de São Paulo. Internada por conta de uma trombose na cabeça, ela recebia raramente a visita dos pais, que moravam longe e não conseguiam sair do trabalho antes das 17:00, horário da visita na UTI. Foi uma paciente grave, que precisou ser submetida a uma cirurgia e a tratamentos complexos, e lembro de ter me debruçado sobre os artigos do seu caso durante vários dias, para discutir com minha chefe na UTI.

Um dia, ela acordou. Não é como nos filmes, em que ela abre os olhos e fala como se nada tivesse acontecido. Ela estava com um tubo na garganta, para garantir a respiração, e o acordar, no primeiro dia, se resumiu a um breve piscar de olhos. Demorou dias para ela manter os olhos abertos e outros dias para ela seguir as pessoas com o olhar.

O que pode acontecer na mente de quem está em coma

Encontrei-a novamente alguns meses depois, quando estava em outro estágio na enfermaria de neurologia. Ela não se lembrou de mim. Mas se lembrava de uma enfermeira que dividia o plantão comigo. Contou-me que, quando a enfermeira ia dar uma medicação na veia ou trocar a sua roupa, contava sobre o seu dia, sobre coisas simples, como o que estava passando na televisão ou como estava o tempo. Alguns flashes dessas conversas ficaram com minha paciente, como pequenos fragmentos de uma vida lá fora.

Hoje sabemos que o coma, descrito como um sono profundo do qual o paciente não pode ser despertado, não significa, necessariamente, um desligamento total do mundo. Estudos de neuroimagem funcional sugerem que alguns pacientes em coma apresentam padrões de atividade cerebral semelhantes aos de pessoas saudáveis quando ouvem vozes familiares. A audição é, muitas vezes, um dos últimos sentidos a serem perdidos e um dos primeiros a retornar.

Por que a voz da família pode fazer diferença

Por isso, vemos a importância dos vínculos de um paciente com sua equipe de saúde e seus familiares. O papel da família aqui é muito importante. A voz de um filho, de um esposo ou de um amigo carrega uma carga afetiva que nenhum equipamento médico consegue reproduzir. Isso reduz os níveis de estresse do paciente, promove um ancoramento na realidade e ajuda a tratar o paciente como alguém presente.

Como falar com alguém em coma no dia a dia

Técnicas práticas no dia a dia

Para quem visita um ente querido em coma, a sensação de "falar sozinho" pode ser angustiante. No entanto, algumas práticas podem tornar essa interação mais eficaz:

  • Identifique-se ao chegar: Mesmo que pareça óbvio, diga seu nome e o que está fazendo. "Oi, sou eu, seu irmão. Vou segurar sua mão agora."
  • Narração do cotidiano: Fale sobre coisas triviais do dia a dia ou notícias positivas da família. Isso ajuda a manter o vínculo com a vida fora do hospital.
  • Estímulo tátil: Se permitido, o toque suave ou segurar a mão enquanto fala potencializa a percepção do paciente.
  • Cuidado com o ambiente: Evite discussões negativas ou conversas sobre prognósticos graves à beira do leito. Parta do princípio de que o paciente pode ouvir e entender.

Minha paciente quase não teve a chance de ficar com os pais durante a fase mais crítica da sua recuperação. Mas a capacidade de uma enfermeira de ir além do tratamento clínico e conversar com ela como uma pessoa de fora ajudou nesse momento angustiante e ficou na memória, mesmo meses depois. São essas as histórias que contamos entre passagens de plantão quando queremos lembrar o que é cuidar.

Felipe Barros - CRM 171321/SP e RQE 73817/SP.

Neurologista do Hospital Sírio-Libanês