Neurologia

A nova fronteira dos laudos médicos: mais clareza sem perder precisão

Por Carolina Rimkus , 18/06/2026

5 min de leitura

A nova fronteira dos laudos médicos: mais clareza sem perder precisão

No INRAD do HC-USP, a dra. Carolina Rimkus coordena um projeto que quer transformar laudos de imagem em textos mais fáceis de entender, sem perder a segurança e a precisão médica.

O avanço da tecnologia na saúde tem criado novas possibilidades para melhorar a comunicação entre médicos e pacientes. No Instituto de Radiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (INRAD-HCFMUSP), uma iniciativa em desenvolvimento busca tornar os laudos de exames de imagem mais acessíveis, sem renunciar à precisão técnica necessária à prática médica.

Desenvolvido em parceria com a Amazon Web Services e a DataRain, o projeto prevê a criação de um sistema capaz de gerar versões distintas dos relatórios: uma voltada aos profissionais de saúde, com linguagem técnica e estrutura adequada à tomada de decisão clínica, e outra destinada aos pacientes, com termos mais simples e explicações de fácil compreensão.

A proposta responde a uma demanda cada vez mais presente na medicina de agilizar o acesso à informação e favorecer o entendimento do paciente sobre a própria saúde. Em exames de imagem, essa necessidade é ainda mais evidente, já que os laudos costumam reunir termos técnicos, descrições anatômicas e achados que, muitas vezes, são de difícil interpretação para quem não é da área médica.

A iniciativa, no entanto, não tem o objetivo de substituir a consulta ou a avaliação médica especializada. O paciente é o principal interessado em sua saúde, mas a interpretação dos resultados deve continuar sendo feita pelo médico, que reúne as informações do exame, o histórico clínico e outros dados necessários para definir diagnóstico, conduta e tratamento. Tornar o laudo mais compreensível é uma forma de qualificar essa relação, não de eliminar etapas do cuidado.

Como a ferramenta está sendo desenvolvida

O desenvolvimento da ferramenta está estruturado em três frentes. A primeira prevê a análise de documentos do paciente para apoiar a elaboração de um resumo de seu histórico médico e já está em funcionamento há cerca de 6 meses no INRAD. A segunda utiliza as informações obtidas a partir da interpretação dos exames radiológicos para estruturar laudos com mais precisão, agilidade e linguagem harmonizada entre a equipe médica. A terceira etapa consiste na adaptação da linguagem, com versões diferentes para especialistas e para o público leigo.

A expectativa é que a segunda frente entre em operação ainda no segundo semestre deste ano. Se implementada como previsto, a solução tornará a elaboração dos laudos mais célere pela equipe do INRAD e com uma estrutura mais uniforme, otimizando a liberação dos laudos, a comunicação para os médicos solicitantes e a comparação dos achados em análises repetidas. A terceira fase, de adaptação da linguagem para diferentes leitores, poderá representar um avanço importante na forma como os resultados de exames são comunicados, aproximando a linguagem médica da realidade dos pacientes e melhorando a experiência dos usuários do INRAD.

Por que isso importa em tempos de inteligência artificial

O projeto também surge em um momento de crescente preocupação com o uso indiscriminado de ferramentas de inteligência artificial para autodiagnóstico. Um estudo da Universidade de Oxford, publicado na revista Nature Medicine, apontou que buscas indiscriminadas por “consultas médicas” em sistemas de IA podem resultar em diagnósticos imprecisos e pouco úteis.

Esse cenário reforça a importância de soluções desenvolvidas dentro de ambientes médicos e científicos, com supervisão especializada e foco na segurança do paciente. A interpretação equivocada de informações de saúde pode gerar ansiedade, levar a decisões precipitadas – como iniciar tratamentos por conta própria ou interromper terapias em andamento – e até adiar consultas necessárias. Por outro lado, se usada com curadoria, treinamento e supervisão corretos, a tecnologia pode ser utilizada para otimizar a comunicação entre os serviços médicos e os pacientes, reduzindo tempo de espera, auxiliando etapas de triagem e oferecendo informação confiável à população.

Ao traduzir a linguagem técnica sem perder a precisão, o sistema em desenvolvimento no INRAD-HCFMUSP aponta para uma medicina mais transparente, acessível e centrada no paciente. Mais do que simplificar palavras, a proposta é contribuir para que a informação em saúde seja compreendida com responsabilidade, fortalecendo a confiança entre pacientes e profissionais.

Dra. Carolina Rimkus – CRM 111750 SP

Neurorradiologista

Professora colaboradora da Faculdade de Medicina da USP

Coordenadora médica de implantação de projetos de inteligência artificial no INRAD-HCFMUSP