Mês da Família

O que a família faz (sem perceber) que decide a segurança emocional das crianças

No Mês da Família, a psicóloga e psicanalista Denise Fleury explica como o convívio em casa marca o jeito de a criança sentir, confiar e se proteger emocionalmente.

Por Redação Brazil Health , 27/05/2026

4 min de leitura

O que a família faz (sem perceber) que decide a segurança emocional das crianças

A família é o primeiro Outro – da linguagem e do afeto – que o sujeito bebê reconhece. É neste ambiente linguageiro que podemos conceber que a dupla na função materna e paterna, lembrando Yolanda Reyes (2021, p. 36), “[...] são os livros de cabeceira: o primeiro texto que as crianças leem”. Por isso mesmo, falar em “segurança emocional” significa conceber que os primeiros vínculos inscrevem no sujeito suas primeiras marcas. O emocional vai depender da forma como esse bebê vai sendo interpelado e desejado no laço familiar.

O que está em jogo no Mês da Família

Em maio, mês da família, amplia-se o debate sobre as relações familiares sem reduzi-las à consanguinidade, e sim a vínculos de desejo, transmissão e presença afetiva. No mundo real, as pessoas se unem, famílias se formam, se desfazem e se refazem e, em cada uma, circula uma miríade de afetos e desafios. A psicanálise sustenta que, independentemente da forma e do modo como as famílias se organizam, o que se torna relevante é a maneira como se constroem laços e, principalmente, como se assume a responsabilidade para com a criança.

O brincar como sinal de construção emocional

Uma imagem que me ocorre é a criança que brinca; ao observá-la, vejo que ela demarca o espaço, nomeia lugares e objetos. Neste jogo lúdico do brincar, as “visitas” entram somente com a sua permissão. Este é um recorte de como a criança vai elaborando, construindo recursos psíquicos e linguageiros como sujeito ativo. É o solo psíquico e imaginário desta criança; é o lugar que oferece tempo e espaço, demarcando sua territorialidade e também o limite nas trocas com o outro e no atravessamento que o crescer promove.

Pequenos gestos que viram proteção

Conheço um relato que me chama atenção pelos pequenos gestos do dia a dia que tecem memórias e afetos. A pessoa diz que o cheiro de que ela mais gostava quando criança era o de naftalina, pois ia passar férias na casa da avó e essa retirava do guarda-roupa os lençóis lavados, limpinhos e bem passados para cobri-la. Suspeito que o que essa criança recebia era uma coberta protetora de afeto, com camadas de palavras e histórias que deram a ela conforto, salvaguardando-a em um sono restaurador. Pequenos gestos, escuta e cuidado são atitudes que os adultos podem oferecer às crianças; muitas vezes não é a presença constante, mas a escuta e o cuidado que fazem colo, arcabouço de palavras e afetos.

Atualmente parece que a vida das crianças está mais “facilitada”. As famílias podem contar com redes de apoio escolar. A sociedade assistiu e acompanhou o avanço do Estatuto da Criança e do Adolescente. Por outro lado, os adultos estão mais atarefados, sem tempo e disponibilidade para a escuta e presença afetiva. Se, de um lado, se fala muito mais sobre a importância da primeira infância, tem-se mais consciência sobre os traumas, e muito mais acesso a estudos e atenção especializadas, por outro lado, as crianças têm rotinas exaustivas e, quando estão em casa, passam seu tempo dentro de seus próprios quartos, interagindo com telas.

A aposta para os desafios atuais passa pela presença amorosa dos pais. A família pode ser essa bússola emocional da criança; no seio familiar, os primeiros textos, a substância das palavras, vão ocupando lugar, fazendo fala, formando a “casa psíquica” com palavras. O que sustenta este lugar não é ter respostas prontas, mas a escuta e o acolhimento da criança como sujeito, com uma alteridade em constituição. Coisas simples que estão ao nosso alcance podem auxiliar: desligue a TV; dedique um tempo para se conectar com seu filho ou sua filha; faça um passeio pelo bairro; brinque e deixe que a própria criança conduza para um lugar, espaço e tempo desconhecidos. Conhecer a criança que vai se apresentando diante de seus olhos pode ser uma aventura cheia de surpresas.

Denise Fleury – CRP/GO 007911

Psicóloga, psicanalista, pedagoga e mestre em educação.