Medicina Nuclear

Medicina Nuclear Além do Câncer: Diagnóstico de Doenças Cardíacas e Neurológicas

Adoção de tecnologia inovadora para diagnóstico precoce transforma o cuidado de doenças cardíacas e neurológicas, beneficiando pacientes e fortalecendo a saúde pública no Brasil.

Por Dr. Marcos Villela Pedras Polonia , 05/09/2025

5 min de leitura

Medicina Nuclear Além do Câncer: Diagnóstico de Doenças Cardíacas e Neurológicas

Tecnologia avançada revela o funcionamento de órgãos e contribui para a precisão diagnóstica, com impacto direto na saúde pública brasileira.

Muito além do seu papel consagrado no diagnóstico e tratamento do câncer, a Medicina Nuclear ocupa também posição de destaque na avaliação de doenças cardíacas e neurológicas — duas das principais causas de morbimortalidade no Brasil —, com reflexos diretos na sobrevida dos pacientes e na sustentabilidade do sistema de saúde.

Impacto na saúde pública e nos custos

Trata-se de uma especialidade médica que alia biologia molecular, tecnologia de ponta e medicina personalizada, oferecendo exames funcionais que revelam processos que ocorrem dentro dos órgãos — muitas vezes antes que alterações estruturais sejam visíveis.

As doenças cardiovasculares (DCV) são a principal causa de morte no país, representando cerca de 21% de todos os óbitos, somando aproximadamente 382.500 mortes em 2021. A prevalência de DAC (doença arterial coronariana) entre adultos alcançou cerca de 4,2%, sendo o risco maior em idosos, hipertensos, obesos e sedentários. Além disso, somente no SUS, os custos relacionados ao infarto do miocárdio chegaram a R$ 22,4 bilhões.

As doenças neurológicas — como demência e Alzheimer — impõem, globalmente, um impacto econômico da ordem de US$ 600 bilhões por ano. No Brasil, estima-se que a demência afete cerca de 21,9% dos idosos acima de 65 anos, embora haja forte subdiagnóstico.

Coração: um exame que vê além da anatomia

A cintilografia de perfusão miocárdica, realizada com SPECT (tomografia por emissão de fóton único), é uma das ferramentas mais robustas da Medicina Nuclear. Utilizada desde a década de 1970, essa técnica tem sido continuamente validada por grandes estudos internacionais e diretrizes clínicas como método eficaz na avaliação de isquemia miocárdica. Embora tradicional, está longe de ser considerada ultrapassada. Novas gerações de equipamentos híbridos — que combinam SPECT com tomografia computadorizada (CT) — possibilitam, em um único exame, avaliar não apenas a perfusão do miocárdio, mas também calcular o escore de cálcio coronariano, estimando a “idade arterial” do paciente e refinando o risco cardiovascular.

Uma inovação tecnológica importante é o uso de câmeras gama com detectores sólidos de cádmio-zinco-telureto (CZT), que possibilitam, por meio de SPECT, a medição da reserva de fluxo coronariano (RFC) — tradicionalmente domínio do PET — com maior resolução e precisão, dispensando os radiotraçadores onerosos do PET. Estudos comprovam que essa tecnologia oferece resultados comparáveis aos métodos PET, apresentando maior acessibilidade à realidade nacional.

Estratégias baseadas em cintilografia — especialmente quando bem indicadas — apresentam custo-efetividade comprovada, ao evitar procedimentos invasivos desnecessários, como o cateterismo, e ao direcionar tratamentos mais adequados para cada caso.

No Brasil, o PET cardíaco ainda é pouco difundido, embora seja uma técnica consolidada internacionalmente. O PET/CT com 18F-FDG possui indicação em casos específicos, como na investigação de inflamações cardíacas e na avaliação da viabilidade miocárdica, respaldada pelas diretrizes clínicas.

Cérebro: imagem molecular a serviço da precisão diagnóstica

No campo das doenças neurológicas, os exames de Medicina Nuclear proporcionam ao médico uma perspectiva única do cérebro em funcionamento. Com o PET e o SPECT cerebral, é possível identificar padrões de metabolismo e perfusão típicos de doenças como Alzheimer, Parkinson e outras demências, frequentemente antes mesmo que os sintomas estejam claramente instalados.

O uso de biomarcadores moleculares tem revolucionado o diagnóstico precoce das doenças neurodegenerativas, permitindo terapias mais precoces e eficazes. No Brasil, já estão disponíveis radiofármacos para PET, como o 18F-FDG, utilizado na avaliação do metabolismo cerebral, e traçadores específicos para beta-amiloide, como o 18F-florbetaben, que auxiliam na detecção precoce da doença de Alzheimer. Embora esses traçadores ainda não estejam amplamente disponíveis no país, representam uma evolução diagnóstica promissora em desenvolvimento.

Na doença de Parkinson e em outros distúrbios do movimento, o 99mTc-TRODAT, utilizado em exames SPECT, permite a avaliação do sistema dopaminérgico e auxilia no diagnóstico diferencial das síndromes parkinsonianas. Novas moléculas estão em desenvolvimento, com capacidade de rastrear processos neuroinflamatórios e alterações sinápticas, ampliando as possibilidades para a compreensão e tratamento de condições neurológicas complexas.

Desafios e perspectivas no Brasil

A Medicina Nuclear alia décadas de tradição a inovações tecnológicas de ponta, demonstrando impactos clínicos e econômicos significativos. Apesar de o Brasil contar com centros de excelência na área, o acesso à tecnologia avançada ainda é desigual. A implantação de aparelhos híbridos e o incentivo à produção nacional de radiofármacos inovadores são passos fundamentais para democratizar o acesso e acompanhar os avanços internacionais.

Ampliar o acesso, estimular pesquisas nacionais e integrar essas tecnologias à prática assistencial pode reduzir custos hospitalares, permitir tratamentos mais precisos e melhorar a qualidade de vida dos pacientes — especialmente em um país marcado por alta incidência de doenças cardiovasculares e neurológicas.

Felipe Hemerly Villela Pedras (CRM/RQE: 52.77681-5 / 16177)

Especialista em medicina nuclear e Diretor Médico da Clínica Villelas Pedras