Hepatologia

Por que o hemograma continua sendo um dos exames mais importantes da medicina

Por Redação Brazil Health , 17/06/2026

5 min de leitura

Por que o hemograma continua sendo um dos exames mais importantes da medicina

O hematologista Dr. Pedro Neffá explica como alterações no sangue podem indicar anemia, infecções e doenças hematológicas antes mesmo de surgirem sinais evidentes.

O hemograma é um dos exames mais solicitados na prática médica. Muitas vezes, ele faz parte de um check-up de rotina, é pedido antes de uma cirurgia ou aparece em uma investigação inicial quando a pessoa se sente cansada, fraca, com febre ou apresenta algum sangramento. Apesar de ser um exame simples e de baixo custo, o hemograma pode trazer informações muito importantes sobre o funcionamento do organismo.

De forma geral, o hemograma avalia três componentes principais do sangue: os glóbulos vermelhos, os glóbulos brancos e as plaquetas. Cada um deles tem uma função diferente. Os glóbulos vermelhos são responsáveis por transportar oxigênio para os tecidos. Os glóbulos brancos participam da defesa do corpo contra infecções. Já as plaquetas ajudam na coagulação, evitando sangramentos excessivos.

Quando o exame aponta anemia e outras pistas sobre a saúde

Quando olhamos para os glóbulos vermelhos, conseguimos identificar se a pessoa tem anemia, principalmente quando a hemoglobina está baixa. É importante entender que ter anemia nunca deve ser considerado normal. Além disso, a anemia não é uma doença única, mas pode ser a manifestação de diferentes condições ou de uma doença subjacente. Ela pode surgir por deficiência de ferro, falta de vitamina B12, perdas de sangue, doenças inflamatórias, alterações da medula óssea ou outras causas. Por isso, além de observar se a hemoglobina está baixa, o médico também avalia características das hemácias, o que ajuda a direcionar a investigação.

Na deficiência de ferro, por exemplo, é comum que as hemácias fiquem menores e mais pálidas no exame. Esse quadro pode estar relacionado a uma alimentação inadequada, menstruação intensa, sangramentos gastrointestinais ou aumento da necessidade de ferro em algumas fases da vida. Já na deficiência de vitamina B12, as hemácias podem aparecer com tamanho aumentado. Além da anemia, a falta de B12 pode causar sintomas neurológicos, como formigamentos, alteração de sensibilidade e dificuldade de equilíbrio, em alguns casos.

Alterações nos glóbulos brancos e nas plaquetas

Os glóbulos brancos também merecem atenção. Eles podem aumentar em situações comuns, como infecções, inflamações e uso de alguns medicamentos. Mas também podem estar baixos, o que pode indicar maior risco de infecções ou sugerir problemas na produção dessas células. Em algumas situações, alterações importantes no número ou no aspecto dos glóbulos brancos podem levantar a suspeita de doenças hematológicas, como leucemias e linfomas.

As plaquetas, por sua vez, ajudam o sangue a coagular. Quando estão muito baixas, pode haver maior tendência a sangramentos, como manchas roxas, sangramento gengival, sangramento nasal ou menstruação muito intensa. Quando estão muito altas, dependendo do contexto, podem estar associadas a processos inflamatórios, deficiência de ferro ou doenças da medula óssea. Por isso, a interpretação deve sempre considerar a história do paciente e outros exames complementares.

O papel do hemograma no diagnóstico precoce

Um ponto importante é que algumas doenças do sangue podem ser descobertas antes mesmo de causarem sintomas claros. Existem casos em que uma pessoa faz um hemograma por rotina e o exame mostra anemia importante, queda das plaquetas ou alteração expressiva dos glóbulos brancos. A partir daí, o médico solicita uma investigação mais detalhada e pode chegar ao diagnóstico de doenças mais graves, como uma leucemia. Nesses casos, o exame de rotina não previne a doença, mas pode permitir que ela seja identificada mais cedo, antes de complicações graves.

Mesmo assim, muitas pessoas só procuram atendimento quando aparecem sintomas. Isso acontece por vários motivos: falta de tempo, medo de descobrir uma doença, dificuldade de acesso ao sistema de saúde ou a sensação de que exames só são necessários quando algo está claramente errado. O problema é que algumas alterações podem evoluir de forma silenciosa por semanas ou meses. Cansaço persistente, palidez, perda de peso inexplicada, febre recorrente, infecções frequentes, manchas roxas sem motivo aparente e sangramentos fora do habitual são sinais que não devem ser ignorados.

É importante lembrar que o hemograma não dá todas as respostas sozinho. Ele é uma fotografia do sangue naquele momento e precisa ser interpretado por um profissional de saúde. Um resultado alterado não significa, necessariamente, uma doença grave. Da mesma forma, um resultado aparentemente normal não exclui todos os problemas de saúde. O valor do exame está justamente em orientar o raciocínio médico e indicar quando é necessário investigar melhor.

Outro conceito importante é que a anemia não se transforma em leucemia. Na maior parte das vezes, a anemia tem outras causas, como deficiência de ferro, deficiência de vitaminas ou perdas de sangue. Entretanto, quando a anemia vem acompanhada de outras alterações no hemograma, como queda das plaquetas ou alterações importantes dos glóbulos brancos, é fundamental ter um olhar mais cuidadoso para o diagnóstico.

Fazer acompanhamento regular, manter consultas de rotina e discutir os resultados com um profissional são atitudes simples que podem fazer diferença. O hemograma é apenas um exame, mas muitas vezes é o primeiro sinal de que o corpo precisa de atenção. Quando bem interpretado, ele pode ajudar a identificar deficiências nutricionais, infecções, alterações da coagulação e doenças hematológicas, contribuindo para diagnósticos mais precoces e tratamentos mais adequados.

Dr. Pedro Neffá - CRM 172414/SP | RQE 10093 | RQE 100936

Hematologista dos hospitais Vila Nova Star e São Luiz Itaim, da Rede D’Or.