A "era das canetas emagrecedoras" pode reduzir o número de doadores de sangue?
Por Dra. Fabiana Sinnott Ghaname , 28/06/2026
5 min de leitura
Entenda o que muda na doação de sangue com o uso dessas medicações e o que a hematologista Dra. Fabiana Sinnott Ghaname orienta sobre segurança e triagem nos hemocentros.
Ao longo de sua história, os serviços de hemoterapia tiveram de se adaptar a cenários muitas vezes dramáticos e urgentes, que impulsionaram o aprimoramento dos processos de triagem, o desenvolvimento de novas estratégias e a incorporação de tecnologias destinadas a garantir a segurança transfusional. Epidemias, doenças emergentes, avanços terapêuticos e novos hábitos da população frequentemente exigem revisões de protocolos e processos, de forma a proteger tanto o doador quanto o receptor de sangue.
De tratamento para diabetes a fenômeno global
Nos últimos anos, poucas transformações foram tão rápidas e abrangentes quanto a popularização dos medicamentos utilizados para perda de peso. As chamadas “canetas emagrecedoras” deixaram de ser um tratamento restrito a pacientes com diabetes mellitus tipo 2 para se tornarem um fenômeno global. Esse movimento ocorre em um cenário no qual a obesidade se consolidou como um dos principais problemas de saúde pública da atualidade, afetando mais de um bilhão de pessoas em todo o mundo e associando-se ao aumento do risco de doenças cardiovasculares, metabólicas e diversas outras condições crônicas.
Os análogos de GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1) surgiram inicialmente como uma opção terapêutica para o diabetes mellitus tipo 2, devido à sua capacidade de estimular a secreção de insulina, reduzir os níveis de glicose e promover maior controle metabólico. Com o passar dos anos, verificou-se que pacientes tratados com essas moléculas apresentavam perda ponderal significativa, maior sensação de saciedade e retardo do esvaziamento gástrico. A partir dessa constatação, medicamentos como semaglutida e, posteriormente, tirzepatida passaram a ser estudados e aprovados para o tratamento da obesidade. Os resultados expressivos observados em estudos clínicos impulsionaram sua rápida incorporação à prática médica, transformando esses medicamentos em um fenômeno global e levando milhões de pessoas a utilizá-los regularmente.
O que a norma do Ministério da Saúde diz sobre doação
Reconhecendo essa realidade, o Ministério da Saúde publicou, em janeiro de 2026, a Nota Técnica nº 5/2026, estabelecendo orientações para a avaliação de candidatos à doação em uso de agonistas do receptor de GLP-1. O documento está alinhado às normas internacionais ao estabelecer que o uso dessas medicações, isoladamente, não contraindica a doação de sangue. Entretanto, determina que o candidato que faz uso de análogos de GLP-1 seja avaliado individualmente e questionado quanto a sintomas gastrointestinais, sinais de desidratação, perda de peso acentuada e alterações recentes no tratamento, especialmente nos 14 dias subsequentes ao início ou ao ajuste de dose. Na presença desses sinais ou sintomas, o candidato deve ser considerado inapto por, no mínimo, 14 dias após sua completa resolução.
Além disso, o profissional responsável pela seleção do doador também deve questionar, de forma explícita, sobre o compartilhamento da medicação. Caso essa prática seja relatada, o candidato será considerado inapto por, no mínimo, 1 ano; porém, outras questões também devem ser avaliadas.
Como isso afeta os estoques de sangue ainda é uma incógnita
De forma simplificada, a elegibilidade do candidato em uso de agonistas de GLP-1 depende fundamentalmente de suas condições clínicas no momento da avaliação. Um indivíduo em uso estável da medicação, bem hidratado, adequadamente alimentado e sem efeitos adversos relevantes poderá ser considerado apto à doação.
No Brasil, ainda não existem estudos que permitam dimensionar o impacto dos agonistas de GLP-1 sobre os estoques de sangue. Mesmo na literatura internacional, os dados sobre doadores em uso de agonistas de GLP-1 são escassos. Considerando que os critérios de triagem já pressupõem que o candidato esteja em boas condições clínicas no momento da doação, é possível que o efeito sobre a disponibilidade de doadores seja limitado. No entanto, essa hipótese ainda precisará ser confirmada por estudos específicos.
A criação de normas técnicas próprias, voltadas para essa “nova era”, demonstra, novamente, a capacidade adaptativa da Hemoterapia, já observada diante de inúmeras transformações epidemiológicas, tecnológicas e sociais ao longo de sua história. Ainda é cedo para dimensionar o impacto do uso crescente dessas terapias na população de doadores. Trata-se de uma mudança recente, que ocorre em larga escala e acompanha uma transformação importante do perfil de saúde da população.
Dra. Fabiana Sinnott Ghaname - CRM 101.219 | RQE 52136
Médica hematologista e hemoterapeuta.
Integra a equipe do Hemocentro da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e do Serviço de Hemoterapia do Hospital Santa Marcelina.
Tags relacionadas: