Transição de Gênero e Fertilidade: Caminhos Possíveis para a Parentalidade
Refletir sobre as alternativas para ter filhos antes, durante ou após a transição de gênero permite planejar o futuro familiar de acordo com as próprias escolhas e possibilidades.
Por Dr. Paulo Gallo de Sá , 31/07/2025
3 min de leitura
Da preservação de gametas à reprodução assistida após a hormonização, entender as opções ajuda pessoas trans a planejar o futuro da família com segurança e autonomia.
Para quem deseja passar por terapia hormonal ou cirurgia de afirmação de gênero e ainda não iniciou o processo, congelar espermatozoides ou óvulos é o passo mais seguro.
- Homens trans (pessoas designadas mulheres ao nascer) podem realizar estimulação ovariana, coleta e congelamento de óvulos; se o tratamento com testosterona já começou, é possível suspender o hormônio por algumas semanas para recuperar a função ovariana antes da coleta.
- Mulheres trans (pessoas designadas homens ao nascer) podem fazer coleta de sêmen por masturbação ou, em casos de bloqueio hormonal avançado, por punção testicular (TESE).
Os gametas ficam armazenados em tanques de nitrogênio líquido por tempo indeterminado e poderão ser usados no futuro em inseminação intrauterina (IIU), fertilização in vitro (FIV) ou com a ajuda de uma pessoa gestante parceira ou de barriga solidária, conforme as normas do Conselho Federal de Medicina.
E se a transição já começou ou foi concluída?
Nem tudo está perdido:
- Suspensão temporária dos hormônios pode reativar a produção de gametas em parte dos casos, embora o tempo de recuperação varie e nem sempre seja completo.
- Extração cirúrgica de tecido reprodutivo (ovarian/testicular tissue cryopreservation) é experimental no Brasil, mas já resultou em nascimentos saudáveis no exterior e pode ser opção para quem passou por bloqueadores na puberdade.
- Uso de óvulos ou sêmen de doadores e gestação por substituição são alternativas para quem não dispõe de gametas próprios ou não deseja interromper hormônios.
- Adoção permanece um caminho possível e legalmente acessível a pessoas trans, embora a prática ainda esbarre em preconceitos.
Desafios no acesso: da legislação ao preconceito
Mesmo com respaldo do SUS para a preservação de gametas antes da transição, filas longas e oferta limitada dificultam a concretização. Na rede privada, o alto custo de congelamento (R$ 4.000 – R$ 15.000) e das técnicas de reprodução assistida (FIV a partir de R$ 20.000 por ciclo) é um obstáculo.
No aspecto jurídico, a Resolução CFM 2.294/21 permite reprodução assistida para pessoas solteiras e casais homoafetivos, mas exige doação parental de gametas até o 4º grau ou anonimato na doação de gametas não parental e parentesco até 4.º grau para gestação por substituição, o que limita opções. Somam-se barreiras de discriminação: profissionais não treinados, recusas veladas em clínicas e insegurança com julgamentos sociais.
Planejamento precoce é a melhor estratégia
- Procure equipe multidisciplinar (endócrino, ginecologista/andrologista, psicólogo) assim que decidir pela transição.
- Discuta objetivos reprodutivos antes de iniciar bloqueadores ou hormônios.
- Avalie benefícios e desconfortos de pausar o tratamento hormonal, caso deseje utilizar gametas próprios após a transição.
- Conheça os direitos de acesso a procedimentos pelo SUS e busque clínicas que sigam protocolos inclusivos.
A possibilidade de formar uma família faz parte do direito à autodeterminação. Informação clara e apoio médico adequado permitem que pessoas trans definam, sem pressa e sem culpa, o melhor caminho para realizar o desejo de ser mãe, pai ou ambos — de acordo com sua identidade, seu tempo e seus sonhos.
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