Por que tantas mulheres ouvem “é normal” e ficam anos sem diagnóstico?
Dr. Thiers Soares explica por que a medicina ainda falha em ouvir, investigar e tratar a dor feminina com a urgência que ela exige
Por Redação Brazil Health , 25/06/2026
4 min de leitura
Existe uma frase que ouço com frequência nos consultórios e que me incomoda profundamente: “Achei que era normal”.
Normal sentir dores incapacitantes durante a menstruação. Normal sangrar excessivamente por dias seguidos. Normal conviver com um cansaço constante. Normal sentir desconforto durante as relações sexuais. Normal esperar anos por uma resposta para sintomas que afetam a qualidade de vida.
Mas não, isso não é normal.
Essa percepção é resultado de uma longa história de banalização das queixas femininas. Durante décadas, a dor da mulher foi minimizada, interpretada como exagero ou tratada como uma consequência inevitável da condição feminina. O resultado é que milhões de mulheres convivem por anos com doenças que poderiam ser diagnosticadas e tratadas muito mais cedo.
A endometriose é um dos exemplos mais conhecidos. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 7 milhões de brasileiras convivem com a doença, que ainda leva, em média, de sete a dez anos para ser diagnosticada. Nesse período, muitas mulheres passam por diferentes especialistas, recebem explicações insuficientes para seus sintomas e seguem convivendo com dores intensas.
A situação não é diferente em outras condições ginecológicas. A adenomiose, frequentemente subdiagnosticada, pode comprometer significativamente a fertilidade e aumentar o risco de complicações gestacionais. Os miomas uterinos atingem entre 70% e 80% das mulheres até os 50 anos de idade, com sintomas muitas vezes mais intensos entre mulheres negras, que também costumam enfrentar maiores dificuldades para acessar diagnóstico e tratamento em tempo adequado.
Além do impacto físico, essas doenças afetam relações pessoais, carreira, saúde mental e planos reprodutivos. Entre 30% e 50% das mulheres com endometriose enfrentam algum grau de infertilidade, segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).
Parte desse problema tem origem fora dos consultórios.
Por muito tempo, a pesquisa científica utilizou o corpo masculino como referência principal para estudos clínicos. Mulheres foram sub-representadas em pesquisas médicas, e muitos tratamentos passaram a ser adotados sem que as diferenças biológicas e hormonais fossem adequadamente consideradas.
Essa lacuna ficou conhecida como gender health data gap, ou lacuna de dados de saúde por gênero. Seus efeitos são concretos. Estudos mostram que mulheres apresentam mais reações adversas a determinados medicamentos porque muitos deles foram desenvolvidos e testados predominantemente em organismos masculinos.
Na prática, isso significa menos conhecimento sobre doenças que afetam exclusivamente as mulheres e menor compreensão sobre como elas manifestam sintomas, respondem a tratamentos e evoluem ao longo do tempo.
Ao mesmo tempo, a medicina dispõe hoje de recursos tecnológicos cada vez mais sofisticados para o tratamento dessas condições. A cirurgia robótica e as técnicas minimamente invasivas ampliaram a precisão dos procedimentos, reduziram o tempo de recuperação e permitiram abordagens mais conservadoras para doenças que, no passado, frequentemente levavam à retirada de órgãos.
Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Minimamente Invasiva e Robótica, entre 90% e 95% dos procedimentos ginecológicos já poderiam ser realizados por via laparoscópica ou robótica.
O desafio, portanto, não é apenas tecnológico.
A principal barreira continua sendo o acesso ao diagnóstico, à informação e à escuta qualificada. Nenhuma inovação substitui a necessidade de investigar sintomas com atenção, levar a dor feminina a sério e abandonar a ideia de que sofrimento faz parte da rotina das mulheres.
A medicina evoluiu muito nos últimos anos. A sociedade também passou a discutir com mais frequência temas ligados à saúde feminina, fertilidade e qualidade de vida. Ainda assim, milhões de mulheres continuam ouvindo que suas dores são normais quando, na verdade, representam sinais importantes de doenças que precisam ser avaliadas.
A excelência médica não está apenas na tecnologia disponível ou na complexidade dos tratamentos. Ela também está na capacidade de ouvir, investigar e oferecer respostas antes que anos de sofrimento sejam tratados como algo inevitável.
Dr. Thiers Soares – CRM 722740Ginecologista especialista em endometriose, adenomiose e miomas.
Médico do setor de endoscopia ginecológica do Hospital Universitário Pedro Ernesto (UERJ) e do Hospital Federal Cardoso Fontes
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