Ginecologia e Obstetrícia

Paracetamol e Autismo: O Risco Real Está nas Fake News

Informações falsas sobre medicamentos durante a gestação podem causar consequências graves e afastar pacientes de tratamentos seguros

Por Dra. Ana Horovitz , 24/09/2025

3 min de leitura

Paracetamol e Autismo: O Risco Real Está nas Fake News

A polêmica sobre o uso do paracetamol na gravidez voltou à tona nos últimos dias após declarações públicas que associaram o medicamento a um possível aumento de casos de autismo em crianças. Essa acusação, sem qualquer base científica, reacendeu o debate sobre a segurança de medicamentos amplamente utilizados por gestantes. Como ginecologista, é fundamental esclarecer de forma direta: não existe nenhuma evidência científica robusta que comprove essa relação.

O que dizem os estudos científicos

O paracetamol (acetaminofeno) é considerado um dos analgésicos e antipiréticos mais seguros para uso durante a gravidez, sendo recomendado por sociedades médicas e agências de saúde em todo o mundo. Estudos observacionais já levantaram hipóteses sobre possíveis associações estatísticas entre o uso do fármaco e o risco de transtornos do neurodesenvolvimento. No entanto, esses estudos têm limitações importantes, como vieses de confusão (por exemplo, infecções ou febre durante a gestação, que já podem impactar o desenvolvimento fetal por si só).

A maior pesquisa populacional feita sobre o tema, realizada com 2,5 milhões de crianças na Suécia, comparou irmãos expostos e não expostos ao paracetamol durante a gestação, e não encontrou associação causal significativa com o autismo. O estudo, publicado em 2023, tornou-se uma das referências mais confiáveis por controlar fatores genéticos e ambientais compartilhados.

Posição da OMS e de agências reguladoras

A Organização Mundial da Saúde (OMS) foi categórica ao responder às recentes alegações: “As evidências atuais são inconsistentes e não estabelecem relação causal entre paracetamol e autismo”. A entidade reforçou que o medicamento segue sendo considerado seguro, quando utilizado em doses apropriadas e sob orientação médica.

Esse mesmo posicionamento é compartilhado por instituições como o FDA (agência reguladora dos Estados Unidos), o Royal College of Obstetricians and Gynaecologists (Reino Unido) e a Sociedade Brasileira de Pediatria. Nenhuma dessas organizações recomenda a suspensão do uso de paracetamol por gestantes.

O perigo real: desinformação e alarde sem ciência

Associações infundadas como essa geram medo e insegurança nas gestantes, podendo levar à automedicação inadequada, abandono de tratamentos seguros e adoção de alternativas perigosas. Pior ainda: desviam a atenção dos riscos reais à saúde da mulher e do bebê, como infecções mal controladas, hipertensão gestacional e pré-natal incompleto.

Se há algo que a ciência nos ensina é que o rigor dos dados deve sempre prevalecer sobre discursos alarmistas. O autismo é uma condição multifatorial, com causas ainda em estudo, envolvendo fatores genéticos e ambientais complexos. Devemos manter a recomendação de utilizar medicamentos na menor dose possível, pelo menor tempo necessário.

Nosso papel como médicos é proteger, informar e acolher. E isso passa, necessariamente, por combater a desinformação com ciência.

Dra. Ana Horovitz - CRM/SP 111739 | RQE 130806

Ginecologista

Membro da Brazil Health