Ginecologia e Obstetrícia

Fertilidade Após o Câncer: Como Preservar Antes do Tratamento e Recuperar Depois

Avanços médicos possibilitam que pacientes de câncer mantenham o sonho da maternidade e paternidade, desde que recebam orientação adequada já no início da jornada.

Por Dr. Luiz Eduardo Albuquerque , 30/08/2025

6 min de leitura

Fertilidade Após o Câncer: Como Preservar Antes do Tratamento e Recuperar Depois

A jornada de vencer o câncer e realizar o sonho de ter filhos é possível. A chave é iniciar a conversa sobre fertilidade no momento do diagnóstico, antes de qualquer tratamento como quimioterapia ou radioterapia. A parceria entre oncologia e reprodução humana desde o início é fundamental para aumentar as chances de sucesso no futuro.

A seguir, detalho as possibilidades antes do tratamento e as opções para depois, com a orientação e o acompanhamento de um médico.

Como proteger a fertilidade antes do tratamento

Existem várias estratégias para preservar a fertilidade, dependendo de cada caso:

  • Congelamento de óvulos ou embriões: para muitas mulheres, essa é a principal opção. O processo estimula os ovários por alguns dias para coletar óvulos, que são congelados como uma "reserva". Se houver um parceiro ou doador, os óvulos podem ser fertilizados para criar e congelar embriões. Se o tumor for sensível a hormônios, medicações são usadas para manter os níveis hormonais sob controle durante o processo.
  • Congelamento de tecido ovariano: essa alternativa é indicada para situações de urgência, quando não há tempo para o congelamento de óvulos, ou para meninas que ainda não menstruaram. Um fragmento do ovário é retirado em uma cirurgia rápida, congelado e reimplantado após o término do tratamento oncológico.
  • Transposição dos ovários: para mulheres que realizarão radioterapia na pelve, os ovários podem ser reposicionados através de cirurgia por vídeo, movendo-os para fora do campo de radiação e protegendo-os dos danos.
  • Injeções que protegem os ovários: utilizadas em conjunto com a quimioterapia, essas injeções "colocam os ovários em repouso" para reduzir o risco de falência ovariana. Elas funcionam como proteção extra e não substituem o congelamento de óvulos ou tecidos.

Preservação da fertilidade masculina

  • Congelamento de sêmen: o material é coletado e armazenado antes da quimio, rádio ou cirurgias que possam comprometer a produção de espermatozoides.
  • Meninos pré-púberes: em centros de pesquisa, já é possível congelar tecido testicular; trata-se de uma abordagem experimental, que deve ser debatida com a equipe responsável.

Engravidar após o tratamento: desafios e soluções

Muitas pessoas realizam o sonho de uma gravidez natural após a recuperação do câncer. Quando isso não ocorre espontaneamente, a medicina oferece diferentes alternativas.

  • Se você possui material genético congelado:
  • A fertilização in vitro (FIV) utiliza os óvulos ou sêmen armazenados antes do tratamento. Tanto no congelamento dos óvulos quanto do sêmen, é possível aplicar a técnica de injeção intracitoplasmática de espermatozoide (ICSI), que injeta o espermatozoide diretamente no interior do óvulo para favorecer a fertilização.
  • Se você congelou tecido ovariano:
  • O reimplante do tecido pode ser feito após o tratamento, permitindo que o corpo volte a produzir hormônios e, frequentemente, ovular. Já existem centenas de bebês nascidos com essa técnica em todo o mundo.
  • Se você faz hormonioterapia para câncer de mama:
  • Em situações específicas, a medicação hormonal pode ser pausada temporariamente para tentar engravidar. Essa decisão deve ser feita em conjunto com os médicos (mastologista e oncologista), com um plano para retomar o tratamento posteriormente.

O momento ideal para tentar engravidar

O tempo de espera é único para cada paciente, considerando o tipo de câncer, as medicações utilizadas e a saúde geral. Geralmente, os médicos avaliam fatores como exames de sangue, saúde do coração e reserva ovariana, sugerindo ao menos um ano de espera após a quimioterapia. A decisão final cabe à equipe oncológica, que acompanhará de perto cada etapa.

Dicas práticas para enfrentar o processo

Para que o percurso seja mais tranquilo, algumas atitudes podem ajudar:

  • Inicie a conversa cedo: assim que receber o diagnóstico, peça ao seu oncologista o encaminhamento imediato para um especialista em reprodução humana. O tempo é decisivo.
  • Organize a logística: mesmo quem não vive nas capitais pode realizar o congelamento de óvulos ou sêmen de modo ágil, já que muitas clínicas possuem protocolos rápidos para pacientes oncológicos.
  • Acolha suas emoções: a ansiedade é comum nesse momento. A ajuda de um psicólogo e o convívio em grupos de apoio podem ser essenciais.
  • Pense a longo prazo: preservar sua fertilidade funciona como "comprar tempo". Armazenando óvulos, sêmen ou tecido ovariano, você mantém a liberdade de decidir sobre seu futuro reprodutivo com calma após o tratamento.

Histórias inspiradoras que mostram resultados

A ciência já mudou o destino de muitas famílias. Casos reais demonstram que a esperança se transforma em realidade: mulheres que congelaram tecido ovariano antes da quimioterapia puderam reimplantar o material, voltaram a ovular e realizaram o sonho da gravidez. Da mesma maneira, casais que preservaram óvulos e sêmen no diagnóstico retornaram anos depois para fazer FIV e tiveram filhos.

Essas histórias não representam apenas conquistas individuais; elas orientam e motivam quem enfrenta o diagnóstico de câncer hoje, mostrando que construir um futuro com filhos é realmente possível.

Conclusão: preservação da fertilidade é parte do tratamento

A preservação da fertilidade é uma etapa fundamental na jornada contra o câncer. As alternativas são acessíveis: para mulheres, o congelamento de óvulos, embriões ou tecido ovariano; para homens, o congelamento de sêmen; para crianças e adolescentes, é indispensável a discussão com equipes médicas especializadas.

Após superar a fase mais difícil do tratamento, permanecem caminhos seguros para realizar o sonho da gestação. O mais importante é agir rapidamente: procure uma clínica de reprodução humana assim que receber o diagnóstico e tome todas as decisões em conjunto com sua equipe de oncologia. Essa postura garante tranquilidade e mantém abertas as possibilidades para o futuro.

Dr. Luiz Eduardo Albuquerque CRM: 61351 / SP RQE: 30799 / 307991

Especialista em Reprodução Assistida e Diretor Clínico do Centro de Reprodução Humana Fertivitro. Membro da Brazil Health.