Geriatria

Polifarmácia e desprescrição

A revisão periódica das medicações pode melhorar a qualidade de vida de idosos e evitar riscos desnecessários à saúde.

Por Dra. Julianne Pessequillo , 18/07/2025

6 min de leitura

Polifarmácia e desprescrição

A polifarmácia e a desprescrição medicamentosa no idoso são temas de grande relevância no cotidiano do médico geriatra, sendo considerados tópicos cruciais, sobretudo devido ao aumento de comorbidades proporcionado pela idade, à sua complexidade e à aderência ao tratamento diante de doenças crônicas.

Mas, para começarmos a falar destes assuntos, você, leitor, sabe do que se trata a polifarmácia no idoso?Definimos como polifarmácia quando estamos diante de um idoso, em uma consulta médica, que faz uso de mais de cinco medicamentos diferentes ao longo do dia. Por isso, é tão importante, nas consultas ambulatoriais, questionar as medicações de uso contínuo do paciente, pois a falta de uma revisão sistemática (por exemplo, a cada 3 a 6 meses) e a dificuldade de monitorar as interações podem impactar negativamente a qualidade de vida do idoso, aumentando o risco de interações medicamentosas e podendo resultar em efeitos adversos graves, como quedas, complicações renais e/ou alérgicas, entre outras. Consequentemente, há maior chance de hospitalizações e até complicações no processo cognitivo.

Mas quais seriam as causas de tanta polifarmácia nos idosos?

Idosos frequentemente apresentam múltiplas comorbidades, que necessitam de tratamentos com diferentes medicamentos e acompanhamento por vários especialistas, além do tipo de tratamento que se busca diante de cada diagnóstico, seja alívio sintomático ou cura de alguma doença. Mas não podemos esquecer que nós, médicos, somos os principais responsáveis pela polifarmácia — e cabe a nós também sermos os principais responsáveis pelo processo de desprescrição dos nossos pacientes.

Através de uma revisão completa dos medicamentos utilizados a cada consulta, podemos suspender os que não são mais necessários ou que apresentam mais riscos do que benefícios. Não nos cabe apenas suspender medicações, mas também monitorar cuidadosamente o idoso para garantir que essa desprescrição não cause efeitos negativos.

A polifarmácia é um desafio crescente em idosos, pois, muitas vezes, os pacientes continuam com tratamentos iniciados em idades mais jovens, mesmo quando os benefícios se tornam duvidosos com o envelhecimento. É muito importante certificar-se de que o paciente está em condições de compreender o processo de desprescrição e acompanhar as mudanças em sua rotina medicamentosa.

É importante que, no processo de desprescrição, haja envolvimento do paciente e da família na tomada de decisão, pois muitos podem ver a interrupção da medicação como algo negativo ou que imponha algum tipo de risco à saúde. Isso deve ser trabalhado por meio de uma explicação clara e acessível sobre os motivos pelos quais cada medicamento não é mais necessário, levando em consideração aspectos como fragilidade, deterioração cognitiva e síndrome da imobilidade — sempre respeitando os valores e preferências do paciente em relação ao tratamento. Muitos médicos ainda não estão totalmente preparados para abordar a desprescrição, pois nosso foco histórico sempre esteve no tratamento da doença.

Após a redução ou retirada de medicamentos, é fundamental monitorar atentamente os efeitos da mudança, observando se houve melhora na funcionalidade física e cognitiva, além de identificar possíveis sinais de desconforto ou efeitos adversos. Se o paciente apresentar efeitos negativos após a desprescrição, é importante ajustar a abordagem, seja reiniciando parte da medicação previamente suspensa ou optando por uma alternativa mais segura.

No idoso, uma das razões para a dificuldade de desprescrição medicamentosa deve-se à carência de consenso e de estudos voltados exclusivamente para essa faixa etária, sendo grande parte dos protocolos adaptados de outras populações. Por isso, o tratamento deve ter uma abordagem equilibrada e individualizada. É importante ressaltar que o trabalho em equipe (médicos, farmacêuticos, enfermeiros, etc.) é essencial para uma desprescrição segura e eficaz.

Hoje, existem protocolos e diretrizes que servem como ponto de apoio para a redução de medicamentos em idosos. Entre eles, podemos citar:

  • Beers Criteria (Critérios de Beers) – Uma lista de medicamentos potencialmente inadequados para idosos.
  • STOPP/START Criteria (Screening Tool of Older Persons’ Prescriptions/Screening Tool to Alert doctors to Right Treatment) – Aborda quais medicamentos devem ser descontinuados e quais devem ser introduzidos.
  • ACOVE (Assessing Care of Vulnerable Elders) – Diretrizes de cuidado para populações vulneráveis de idosos.

Também podemos destacar o uso de tecnologias de apoio, como softwares que auxiliam na revisão de prescrições. A inteligência artificial (IA) pode ser fundamental para detectar interações medicamentosas perigosas, ao analisar grandes volumes de dados e identificar padrões que podem passar despercebidos por profissionais humanos. A IA pode alertar para potenciais interações e efeitos adversos, fornecendo ao médico informações cruciais para uma prescrição mais segura. Também pode ajudar a identificar medicamentos que não são mais indicados ou que apresentam risco elevado de causar interações perigosas, apoiando o médico na decisão de reduzir ou substituir fármacos.

Embora promissora, a IA não deve substituir o julgamento clínico humano. O contexto clínico do paciente deve ser sempre considerado, especialmente em idosos, cujas variáveis são muitas.

Conclusão

A desprescrição não se resume a reduzir o número de medicamentos, mas sim a melhorar a qualidade de vida do paciente, por meio de uma abordagem cuidadosa e individualizada, focada em suas necessidades. Devemos priorizar medicamentos que melhorem a mobilidade, a cognição e a qualidade de vida geral. Sempre que possível, substituir tratamentos medicamentosos por alternativas não farmacológicas (como fisioterapia, terapia ocupacional, intervenções nutricionais) pode trazer benefícios significativos.

É fundamental também considerar a saúde mental, emocional e o suporte social do paciente, garantindo que a desprescrição não resulte em isolamento social ou agravamento do estado psicológico. O envolvimento do paciente e da família, aliado a uma revisão contínua das terapias, são passos fundamentais para garantir que o processo de desprescrição seja bem-sucedido.