Geriatria

Obesidade na Terceira Idade: Alerta de Saúde e Oportunidade para o Cuidado Integrado

Cada vez mais comum entre idosos, a obesidade exige estratégias específicas, prevenção ativa e abordagens humanizadas para preservar autonomia e qualidade de vida

Por Dra. Julianne Pessequillo , 16/05/2025

4 min de leitura

Obesidade na Terceira Idade: Alerta de Saúde e Oportunidade para o Cuidado Integrado

A obesidade, historicamente vista como um problema das fases mais ativas da vida, nos idosos deixou de ser uma exceção para se tornar uma tendência preocupante e crescente não somente no Brasil, mas em diversas partes do mundo. Atualmente, aproximadamente 31% da população brasileira vive com obesidade, conforme dados do Atlas Mundial da Obesidade 2025. E cerca de 68% da população apresenta excesso de peso, sendo 37% com sobrepeso. Estudos indicam que até 2044, 48% dos adultos brasileiros estarão obesos e 27% estarão com sobrepeso, totalizando 75% da população adulta com excesso de peso.

O aumento expressivo no número de atendimentos reflete não apenas um problema de saúde pública, mas também uma maior conscientização e busca por cuidados adequados pelos profissionais da saúde. Dados recentes apontam um aumento expressivo nos atendimentos geriátricos relacionados ao sobrepeso e suas comorbidades, como hipertensão, diabetes tipo 2, artrose e síndromes metabólicas. O que antes era considerado exceção, hoje é realidade cada vez mais presente nos consultórios e serviços de saúde. A obesidade deverá gerar ao Brasil um impacto econômico de mais de US$ 75 bilhões até 2035, sendo US$ 19 bilhões apenas com assistência médica em saúde. Enfrentar o sobrepeso nessa faixa etária exige olhar para questões fisiológicas próprias do envelhecimento.

Esse fenômeno não apenas acende um alerta sobre os desafios da saúde pública no envelhecimento populacional (a obesidade em idosos pode levar à perda de autonomia funcional, aumento do risco de quedas e fraturas, além de comprometimento da qualidade de vida), mas também revela uma nova oportunidade: promover um cuidado mais integrado, humanizado e centrado na prevenção e no bem-estar do idoso, além de criar estratégias seguras que envolvam alimentação balanceada, atividade física supervisionada e acompanhamento profissional.

Lidar com a obesidade em pessoas acima dos 60 anos requer sensibilidade e conhecimento específico. O envelhecimento traz alterações metabólicas naturais, perda de massa muscular (sarcopenia), mudanças na composição corporal e menor gasto energético basal. Além disso, questões como mobilidade reduzida, uso de múltiplos medicamentos e alterações no apetite complicam ainda mais o cenário. Portanto, estratégias eficazes de manejo do peso nessa fase da vida não podem ser meras adaptações de protocolos voltados a adultos jovens. Elas devem considerar a complexidade da fisiologia do envelhecimento, respeitando os limites e as necessidades de cada paciente.

Abordagem multidisciplinar e individualizada

O enfrentamento da obesidade na terceira idade exige uma abordagem multidisciplinar, que reúna profissionais de diversas áreas — como geriatria, nutrição, educação física, fisioterapia, psicologia e enfermagem — em um plano terapêutico centrado no idoso e individualizado para cada perfil de idoso atendido, seja ele robusto, pré-frágil ou frágil. Planos alimentares devem ser individualizados, garantindo não apenas restrição calórica segura, mas também aporte adequado de proteínas, vitaminas e minerais. O exercício físico, por sua vez, precisa ser supervisionado e adaptado às capacidades do idoso, priorizando equilíbrio, força muscular e flexibilidade. A atividade física, quando bem conduzida, tem se mostrado uma das intervenções mais eficazes não apenas para a redução do peso corporal, mas para a preservação da massa muscular, da mobilidade e da saúde mental.

Outro componente essencial é o acompanhamento psicológico. Questões emocionais como luto, isolamento social e depressão são fatores de risco importantes para o ganho de peso e precisam ser abordados como parte do cuidado integral.

Prevenção e políticas públicas

Mais do que tratar os efeitos da obesidade, é preciso cultivar uma cultura de prevenção, com políticas públicas que incentivem o envelhecimento ativo e saudável. Campanhas de conscientização, programas de saúde preventiva e suporte comunitário são pilares fundamentais para garantir mais anos de vida com qualidade.

Cuidar para transformar a realidade

A obesidade entre os idosos é um reflexo das mudanças sociais, culturais e comportamentais das últimas décadas. Reconhecer essa realidade é o primeiro passo para transformá-la. Com olhar sensível e cuidado integrado, é possível não apenas controlar o peso, mas resgatar autonomia, autoestima e bem-estar na terceira idade. Essas respostas refletem um avanço importante na maneira como enxergamos o envelhecimento: não mais como um processo exclusivamente de perdas, mas como uma oportunidade de cuidado ativo, baseado em ciência, empatia e respeito à individualidade de cada idoso.