Muito além do ronco: os riscos da apneia obstrutiva do sono
7. Prevalence and Risk Factors for Obstructive Sleep Apnea in São Paulo: 4th Edition of the EPISONO Study. Journal of Sleep Research, v. 35, n. 3, e70255, 2026. TUFIK, S.; PORCACCHIA, A. S.; PIRES, G. N.; ANDERSEN, M. L.
Por Adriana Fanelli , 10/07/2026
5 min de leitura
Associada a doenças cardiovasculares, fadiga persistente e queda na qualidade de vida, a apneia do sono afeta milhões de pessoas e muitas vezes permanece sem diagnóstico ou tratamento adequado, alerta a fisioterapeuta respiratória Adriana Fanelli
A apneia obstrutiva do sono (AOS) representa uma das condições médicas mais prevalentes e subdiagnosticadas da atualidade. Estudos recentes estimam que aproximadamente 936 milhões de adultos entre 30 e 69 anos em todo o mundo apresentam essa condição, sendo que 425 milhões possuem formas moderadas a graves que requerem tratamento. No Brasil, dados do estudo EPISONO de 2026 revelam que mais de um terço da população paulistana (37,12%) apresenta AOS, atingindo 45% dos homens.
O que é a apneia obstrutiva do sono
A AOS resulta do colapso repetitivo das vias aéreas superiores durante o sono, causando interrupções na respiração que levam à redução dos níveis de oxigênio no sangue, fragmentação do sono e ativação excessiva do sistema nervoso simpático.
A obesidade constitui o principal fator de risco modificável, presente em 60% a 70% dos pacientes com AOS. O excesso de tecido adiposo na língua, faringe e região cervical estreita as vias aéreas, enquanto a gordura abdominal impede a expansão completa do tórax e dos pulmões. Estudos demonstram que um aumento de 10% no peso corporal está associado a um incremento de 32% no índice de apneia-hipopneia, e mais de 40% das pessoas com índice de massa corporal acima de 30 apresentam AOS.
Outros fatores de risco incluem sexo masculino, idade avançada, anormalidades craniofaciais, circunferência cervical aumentada, histórico familiar e condições endócrinas como hipotireoidismo e acromegalia. Em mulheres, a menopausa representa um período de risco aumentado, com prevalência 2,6 a 3,5 vezes maior em mulheres pós-menopáusicas, quando comparadas às pré-menopáusicas.
Por que a apneia não tratada é perigosa
A AOS não tratada desencadeia uma cascata de alterações fisiopatológicas que incluem hipoxemia intermitente, estresse oxidativo, inflamação sistêmica, disfunção endotelial vascular e desregulação metabólica. Essas alterações explicam por que a prevalência de AOS atinge 40% a 80% em pacientes com hipertensão arterial, insuficiência cardíaca, doença arterial coronariana, hipertensão pulmonar, fibrilação atrial e acidente vascular cerebral, além de contribuir para perda de produtividade, aumento de custos com saúde e acidentes de trânsito e de trabalho.
Diagnóstico e tratamento: onde o CPAP e o fisioterapeuta entram
Muitos pacientes não consideram a sonolência diurna um sintoma relevante para discutir com profissionais de saúde. A investigação médica por especialista em medicina do sono é fundamental para estabelecer o diagnóstico preciso por meio da polissonografia e determinar a estratégia terapêutica mais adequada para cada paciente.
Embora o diagnóstico seja médico, o sucesso terapêutico depende criticamente da adesão ao tratamento com pressão positiva contínua nas vias aéreas (CPAP), considerado padrão-ouro para casos moderados a graves. Aproximadamente metade dos pacientes enfrenta dificuldades de adesão, e é nesse contexto que o fisioterapeuta especializado em distúrbios respiratórios desempenha um papel insubstituível.
O fisioterapeuta possui formação única em fisiologia respiratória, biomecânica torácica e padrões ventilatórios, permitindo conduzir a adaptação personalizada ao CPAP por meio da seleção criteriosa da interface (máscara), ajuste fino das pressões, identificação e resolução de problemas técnicos (vazamentos, desconforto), educação sobre o funcionamento do equipamento e implementação de estratégias comportamentais baseadas em evidências científicas. Estudos demonstram que intervenções de suporte profissional aumentam o uso do CPAP em aproximadamente uma hora por noite e melhoram significativamente as taxas de adesão, definidas como uso superior a quatro horas por noite.
Adriana Fanelli - Crefito-3: 16524-F
Fisioterapeuta Respiratória/ Distúrbio do Sono
_________________________________________________________________________
Referências bibliográficas:
1. Diagnosis and Management of Obstructive Sleep Apnea: A Review. The Journal of the American Medical Association. 2020. Gottlieb DJ, Punjabi NM. Review
2. Screening for Obstructive Sleep Apnea in Adults: US Preventive Services Task Force Recommendation Statement. The Journal of the American Medical Association. 2017. US Preventive Services Task Force, Bibbins-Domingo K, Grossman DC, et al. Review
3. Obstructive Sleep Apnea in Adults. The New England Journal of Medicine. 2019. Veasey SC, Rosen IM. Review
4. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. American Psychiatric Association (2022). 2022. Dilip V. Jeste, Jeffrey A. Lieberman, David Fassler, et al. Guideline
5. Obstructive Sleep Apnea and Cardiovascular Disease: A Scientific Statement From the American Heart Association. Circulation. 2021. Yeghiazarians Y, Jneid H, Tietjens JR, et al. Guideline
6. Obstructive Sleep Apnea and Cardiometabolic Disease: Obesity, Hypertension, and Diabetes. Circulation Research. 2025. Tasali E, Pamidi S, Covassin N, Somers VK. Recent
Tags relacionadas: