Endocrinologia e Metabologia

Testosterona, o Hormônio da Vez

Saiba por que a procura por exames e tratamentos à base de testosterona cresce e descubra os cuidados necessários antes de fazer a reposição hormonal.

Por Redação Brazil Health , 16/10/2025

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Testosterona, o Hormônio da Vez

No dia a dia do consultório, é praticamente impossível não encontrar algum exame de testosterona entre os exames de rotina, principalmente em pacientes que desejam melhorar sintomas como cansaço ou que pretendem aumentar a massa muscular e a libido. O tema é cercado de polêmicas, embora exista uma vasta literatura e recomendações de instituições médicas renomadas. Muitas vezes, o simples resultado laboratorial já leva à prescrição de testosterona. Mas será que a reposição realmente é necessária? Será ela a solução para muitos dos problemas atuais? Afinal, quem não gostaria de melhorar sua performance, não é mesmo? Na endocrinologia, a indicação de qualquer hormônio deve ser baseada na presença de sintomas e sinais clínicos, confirmados por exames laboratoriais e testes diagnósticos. Com a testosterona, não é diferente.

Entenda a função da testosterona no organismo

A testosterona é o principal hormônio masculino, essencial para a função reprodutiva, o desenvolvimento e a manutenção das características consideradas masculinas, além de ter um papel importante na saúde muscular e óssea. No homem, o chamado hipogonadismo é diagnosticado quando há sintomas e sinais claros de deficiência de testosterona e exames que comprovam níveis persistentemente baixos desse hormônio.

A queda significativa da ação androgênica está associada a uma série de sintomas, incluindo osteoporose, fraqueza, redistribuição da gordura corporal, anemia, redução do desejo e da função sexual, mal-estar e alterações cognitivas.

Quando desconfiar de deficiência hormonal?

Pessoas com hipogonadismo geralmente apresentam redução dos níveis de testosterona e da contagem de espermatozoides, ou ambos, junto com aumento de outros dois hormônios produzidos pela hipófise: FSH (folículo-estimulante) e LH (luteinizante).

Diversas doenças podem afetar o funcionamento hormonal masculino, como hemocromatose, doença falciforme, alcoolismo, uso de corticoides e, ainda, o próprio envelhecimento. Além disso, problemas agudos ou crônicos, uso de medicamentos, obesidade, desnutrição e exercícios em excesso também podem reduzir a testosterona.

Definir a deficiência de androgênios não é simples. Os níveis considerados baixos variam com idade e sexo, já que a testosterona naturalmente diminui com o passar dos anos, e essa queda nem sempre exige tratamento. O exame para medir o hormônio requer cuidados: deve ser feito com o paciente em jejum, até as 10 horas da manhã e após uma noite bem dormida. Jamais se deve basear o diagnóstico em apenas um exame, pois os valores podem variar até 30% entre dias diferentes para um mesmo paciente, por isso recomenda-se repetir a coleta.

Reposição hormonal em mulheres: entenda os limites

Para mulheres, segundo recomendações recentes da Endocrine Society, o diagnóstico de deficiência de androgênios em pacientes saudáveis não deve ser feito, já que ainda não há dados suficientes relacionando níveis baixos do hormônio a sintomas específicos. Os baixos níveis de testosterona normalmente não indicam, por si só, piora da função sexual.

A situação é ainda mais complicada pela falta de exames padronizados e de referências precisas para medir a testosterona nos baixos níveis femininos. Em muitos casos, o método utilizado subestima os resultados, aumentando o risco de diagnósticos equivocados.

Atualmente não é raro encontrar prescrições de testosterona para mulheres na menopausa na esperança de melhorar a libido. No entanto, a libido feminina não depende apenas desse hormônio. O desejo sexual está ligado a fatores orgânicos, psicológicos, relacionais e motivacionais. Mesmo assim, a terapia com andrógenos após a menopausa é um assunto polêmico e precisa ser avaliada com cautela. Muitas queixas durante essa fase têm relação com o desejo sexual e com a dor durante a relação, por isso recomenda-se atenção à reposição de hormônios femininos, como o estradiol, quando indicado.

A indicação de testosterona para mulheres é bastante restrita: costuma ser dirigida para pacientes diagnosticadas com transtorno do desejo sexual hipoativo, que realmente buscam tratamento e não têm contraindicações. O próprio DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) reúne o desejo/interesse sexual e a excitação física em sua definição, incluindo falta de interesse e de excitação diante de estímulos eróticos. O diagnóstico é feito com questionários validados, usados também para monitorar quem inicia a reposição. Nem todas as mulheres, porém, respondem ao tratamento. No Brasil, até agora, não existe nenhum medicamento com testosterona aprovado especificamente para o público feminino. As fórmulas destinadas aos homens não devem ser usadas por mulheres, pelo risco de superdosagem e dificuldade de controle.

Dra. Maria Augusta Karas Zella é endocrinologista/metabologista e professora de Semiologia e Endocrinologia da Faculdade Evangélica Mackenzie Paraná (FEMPAR).