Por que as crianças estão perdendo habilidades motoras na era digital?
A psicopedagoga Luciana Brites explica por que o excesso de telas afeta a coordenação das crianças e aponta brincadeiras simples para recuperar foco, atenção e confiança.
Por Redação Brazil Health , 23/02/2026
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O uso cada vez mais frequente de tablets e celulares tem alterado a rotina infantil e diminuído o tempo destinado a brincadeiras que envolvem movimento corporal. A substituição de atividades físicas por práticas sedentárias interfere diretamente no desenvolvimento motor e pode trazer reflexos para o desempenho cognitivo. A construção das habilidades motoras depende de prática regular, repetição de movimentos e exploração ativa do espaço. Sem esses estímulos, a criança tende a apresentar dificuldades na coordenação e na precisão dos gestos.
A coordenação motora global corresponde à capacidade de controlar movimentos amplos do corpo, como correr, saltar, girar, dançar e manter o equilíbrio. Essas competências não se restringem ao momento da brincadeira. Elas sustentam tarefas do cotidiano, como escrever, organizar o material escolar, subir escadas, participar de jogos e praticar esportes. A consolidação desses movimentos amplia a autonomia e contribui para a segurança física da criança.
Primeira infância e desenvolvimento neuromotor
Os primeiros anos de vida concentram um período intenso de amadurecimento cerebral e corporal. Entre 0 e 6 anos, o sistema nervoso apresenta elevada capacidade de organização e consolidação de circuitos neurais relacionados ao movimento, à atenção e ao planejamento. A oferta de experiências motoras variadas nesse intervalo favorece a integração entre percepção, ação e raciocínio. Após essa fase, a aprendizagem de novas habilidades continua possível, pois a neuroplasticidade acompanha o crescimento, embora a ausência de estímulos adequados possa exigir intervenções mais direcionadas.
A coordenação motora fina também exige estímulo constante. Atividades como desenhar, recortar, encaixar peças e manipular pequenos objetos aprimoram a coordenação olho-mão e fortalecem a musculatura envolvida em ações mais delicadas. O desenvolvimento equilibrado entre coordenação ampla e fina é determinante para o progresso acadêmico e para a realização de tarefas que exigem precisão.
Brincadeiras e funções cognitivas
A inserção de brincadeiras no cotidiano não requer recursos sofisticados. Pular corda, brincar de amarelinha, correr em espaços abertos, dançar, desenhar e montar circuitos com almofadas ou objetos disponíveis em casa oferecem estímulos relevantes para o desenvolvimento motor. Essas práticas ampliam a consciência corporal, fortalecem o equilíbrio e estimulam a coordenação entre diferentes partes do corpo.
O envolvimento em atividades físicas também contribui para o amadurecimento das funções executivas, como atenção sustentada, memória de trabalho e controle inibitório. Planejar um percurso, ajustar o corpo a um obstáculo ou repetir um movimento até executá-lo com precisão exige organização mental e persistência. Essas competências repercutem no desempenho escolar e na capacidade de lidar com desafios cotidianos.
Além dos ganhos motores e cognitivos, a vivência de brincadeiras coletivas favorece a socialização e o desenvolvimento emocional. A interação com outras crianças estimula cooperação, respeito a regras e resolução de conflitos, aspectos fundamentais para a formação integral.
A presença da tecnologia na infância é parte da realidade contemporânea e pode ter função educativa quando utilizada com critério e acompanhamento. O equilíbrio entre tempo de tela e atividades corporais é indispensável para assegurar experiências diversificadas e compatíveis com as necessidades do desenvolvimento infantil. Pais e educadores desempenham papel central ao organizar rotinas que incluam movimento, exploração do ambiente e interação social, garantindo condições mais consistentes para o crescimento saudável.
*Luciana Brites é psicopedagoga e especialista em desenvolvimento infantil.