Dermatologia

Botox Reduz Estresse? O Que a Ciência Diz sobre a Nova Moda do TikTok

Apesar de possíveis impactos no humor, o uso de botox contra o estresse permanece sem comprovação médica e é visto como um efeito extra, não como tratamento.

Por Dra. Suellen Karla C.M. Stafuzza , 12/08/2025

4 min de leitura

Botox Reduz Estresse? O Que a Ciência Diz sobre a Nova Moda do TikTok

Teoria do feedback facial e estudos recentes sugerem um efeito emocional, mas não há aprovação médica para tratar estresse com toxina botulínica

Uma nova tendência no TikTok tem chamado a atenção de médicos e curiosos: a alegação de que o botox pode reduzir o estresse. Celebridades, influenciadores e usuários relatam sensação de “leveza emocional” após a aplicação da toxina botulínica na testa. Mas será que essa moda tem respaldo científico?

A teoria do feedback facial: quando o rosto influencia o cérebro

A explicação mais aceita para esse possível efeito se baseia na teoria do feedback facial. Segundo essa hipótese, nossas expressões faciais não apenas refletem emoções, mas também podem modulá-las. Franzir a testa reforçaria sentimentos de preocupação ou tensão, enquanto suavizar os músculos faciais poderia ajudar a atenuar essas emoções.

Estudos de neuroimagem dão suporte a essa teoria. Um dos mais citados, publicado no Journal of Psychiatric Research (Finzi & Rosenthal, 2014), mostrou que a aplicação de botox na região glabelar (entre as sobrancelhas) reduz a atividade da amígdala, estrutura cerebral ligada à resposta emocional ao medo e ao estresse. Ao bloquear os músculos responsáveis por expressões negativas, o botox poderia interromper um ciclo de retroalimentação entre corpo e cérebro.

Botox e estresse: existe impacto sobre os níveis de cortisol?

Em 2023, uma pesquisa publicada no Journal of Craniofacial Surgery investigou o efeito do botox nos níveis de cortisol, hormônio associado ao estresse. O estudo envolveu pacientes com bruxismo tratados com toxina botulínica e encontrou redução significativa do cortisol salivar após o tratamento, sugerindo que o relaxamento muscular pode ter efeitos sistêmicos na resposta ao estresse.

No entanto, esses estudos são limitados: a maioria tem amostras pequenas, é voltada a condições específicas (como bruxismo ou depressão leve) e não avalia diretamente o estresse psicológico em indivíduos saudáveis.

Mito ou realidade? O que a ciência já pode afirmar?

O que está comprovado:

  • A toxina botulínica pode modular áreas cerebrais associadas ao processamento emocional.
  • Estudos clínicos apontam melhora de sintomas de depressão leve a moderada em alguns pacientes.
  • Em condições específicas, como bruxismo, há evidência de redução nos níveis de cortisol.

O que ainda é especulação:

  • O uso do botox para tratar estresse ou ansiedade não é aprovado por FDA ou Anvisa.
  • Os efeitos emocionais positivos podem variar muito de pessoa para pessoa.
  • O botox não substitui psicoterapia, meditação, exercícios físicos ou medicamentos quando indicados.

Conclusão

A ideia de que o botox pode melhorar o bem-estar emocional tem algum respaldo científico, mas não deve ser confundida com uma nova indicação terapêutica. O que as redes sociais apresentam como solução imediata pode, na realidade, ser apenas um efeito colateral positivo de um procedimento estético.

Enquanto pesquisas mais robustas não confirmam esses efeitos, a toxina botulínica deve ser vista principalmente como um recurso estético. Seu potencial emocional pode ser um benefício adicional, mas jamais um substituto para o cuidado integral da saúde mental.

Suellen Karla C.M. Stafuzza - CRM: 161.232 SP RQE:103.095

Dermatologista

Referências:

  • Finzi, E., & Rosenthal, N. E. (2014). Treatment of depression with botulinum toxin A: A randomized, double-blind, placebo-controlled trial. Journal of Psychiatric Research, 52, 1–6.
  • Magid, M., et al. (2023). Effect of botulinum toxin on salivary cortisol levels in patients with bruxism. Journal of Craniofacial Surgery.
  • Hennenlotter, A., et al. (2009). Amygdala activity associated with emotion processing is modulated by facial muscle paralysis. Biological Psychiatry, 65(4), 320–323.