Cardiologia

O que acontece com o seu coração quando você dorme menos de seis horas por noite?

Para a cardiologista Dra. Ana Paula Garcia, dormir bem não é um luxo nem uma perda de tempo. O sono é um dos pilares da saúde cardiovascular e sua privação pode desencadear uma série de alterações que aumentam o risco de infarto, AVC e outras doenças do coração

Por Dra. Ana Paula Andrade Garcia, 28/07/2026

4 min de leitura

O que acontece com o seu coração quando você dorme menos de seis horas por noite?

Vivemos em uma sociedade que valoriza a produtividade, as jornadas prolongadas e a ideia de que dormir pouco é sinônimo de dedicação. Muitas pessoas se orgulham de funcionar com apenas cinco ou seis horas de sono por noite. O problema é que o coração não compartilha dessa visão.

A ciência vem mostrando de forma cada vez mais clara que dormir menos de seis horas de maneira habitual está associado a um maior risco de doenças cardiovasculares. O sono é um período de recuperação fundamental para o organismo. É durante esse momento que o corpo reduz seu estado de alerta, regula hormônios, reorganiza processos metabólicos e permite que o sistema cardiovascular se recupere do estresse do dia.

Quando esse período de descanso é encurtado, uma série de mecanismos prejudiciais entra em ação.

O coração permanece em estado de alerta

Uma noite mal dormida não provoca apenas cansaço e dificuldade de concentração no dia seguinte. A privação de sono aumenta a produção de cortisol, conhecido como o hormônio do estresse, e estimula excessivamente o sistema nervoso simpático, responsável pelas respostas de alerta do organismo.

Na prática, isso significa que o corpo permanece em um estado de ativação contínua. A frequência cardíaca tende a aumentar, a pressão arterial pode se elevar e os vasos sanguíneos ficam mais sujeitos ao desgaste.

Com o passar do tempo, esse estímulo constante cria um ambiente desfavorável para a saúde cardiovascular e contribui para o desenvolvimento de doenças crônicas.

Dormir pouco também afeta o metabolismo

As consequências do sono insuficiente vão muito além do sistema nervoso. Dormir pouco altera o funcionamento de diversos hormônios relacionados ao apetite, ao metabolismo e ao controle da glicose.

Estudos mostram que a privação crônica de sono está associada à menor sensibilidade à insulina, favorecendo o desenvolvimento de resistência insulínica e diabetes tipo 2. Além disso, aumenta a produção de substâncias inflamatórias, criando um estado de inflamação de baixo grau que contribui para o envelhecimento precoce do sistema cardiovascular.

Outro efeito bastante conhecido é a maior tendência ao ganho de peso. Pessoas que dormem pouco costumam apresentar mais fome, maior desejo por alimentos calóricos e maior dificuldade para controlar o peso corporal, um fator que também aumenta o risco cardiovascular.

O preço de transformar o sono em hábito de privação

Dormir mal de forma ocasional faz parte da vida. O problema surge quando a restrição de sono se torna um padrão.

Diversos estudos populacionais mostram que pessoas que dormem menos de seis horas por noite de maneira habitual apresentam maior risco de hipertensão arterial, doença coronariana, arritmias, insuficiência cardíaca, infarto e acidente vascular cerebral.

Há evidências, inclusive, de que a privação de sono esteja associada ao aumento da mortalidade cardiovascular.

É importante lembrar que a qualidade do sono também faz diferença. Algumas pessoas permanecem muitas horas na cama, mas têm um sono fragmentado ou sofrem de distúrbios como a apneia obstrutiva do sono, uma condição que aumenta significativamente o risco de hipertensão, fibrilação atrial e outras doenças cardíacas.

Por isso, quando falamos em prevenção cardiovascular, não podemos pensar apenas em colesterol, pressão arterial, alimentação e atividade física. O sono precisa ser reconhecido como um dos pilares da saúde do coração.

Em muitos casos, a prevenção começa com uma medida simples, mas frequentemente negligenciada: respeitar a necessidade de descanso do próprio organismo. Apagar a luz um pouco mais cedo pode parecer um gesto pequeno, mas para o coração pode representar um investimento valioso em saúde e longevidade.

Dra. Ana Paula Andrade Garcia CRM - SP 151.840

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